
“Afirmo que a política do escândalo é uma das opções entre as armas para embates e competições no campo da política informacional”.
Manuel Castells
Publicada primeiramente em 1996, A era da informação: economia, sociedade e cultura, volume 2. O poder da identidade (São Paulo: Paz e Terra, 2001) de Manuel Castells, estabeleceu-se como um parâmetro para o enfrentamento da dificuldade atroz – quase uma impossibilidade – que é a da elaboração de intermediações sobre a política nas democracias ocidentais. No contato com ela temos que nos conter para que não pronunciemos a grande besteira midiática que é a de crer que o autor tenha sido um precursor do que somente no futuro viria a ser descoberto: quantas pessoas ilustradas se rendem a essa falácia?
Castells levava em consideração os escândalos havidos de forma expressiva durante a década de 1990 e que levaram países como o Brasil, Coréia do Sul, Espanha, França ou Estados Unidos à experiência catártica da exposição pública dos atos corruptos que envolviam as suas respectivas elites. Para o autor, muitos fatores poderiam ter conduzido a essa situação, uma vez que ele não supunha a hipótese de que realmente compartilhamos o pior dos contextos históricos no que se refere aos ilícitos praticados pelos altos postos dos governos: o “nunca antes neste país” sendo pronunciado como um mantra de esquerda e direita.
A presença marcante da imprensa e da necessidade óbvia que é a de produzir notícias, a demanda do público pelos assuntos que envolvam a privacidade dos entes políticos, a dificuldade de se manter sigilo sobre as práticas de corrupção que envolvem muitos elos, bem como o alto custo das campanhas políticas, perfazem alguns dos motivos que justificam a expressão a “política do escândalo”. Além disso, de acordo com Castells,
“A acirrada concorrência na política bem como a luta para influenciar a ampla faixa intermediária do espectro político do eleitorado, turvaram quase por completo os tons ideológicos, pois os partidos/coalizões, uma vez asseguradas suas principais bases de apoio, fazem enormes esforços para usurpar, tanto quanto possível, os temas e as posturas políticas de seus adversários.” (Castells, p. 394)
Quase trinta anos depois da publicação dessa obra, o que podemos trazer para a reflexão do jogo político que se faz contemporâneo? Pensemos então em algumas situações bem concretas e próximas de nós condenados pelo cotidiano político brasileiro.
O objeto de desejo da equipe político-estratégica do ex-presidente Jair Bolsonaro é que ele seja condenado em todas as instâncias e que seja conduzido à prisão. As imagens produzidas iriam se tornar virais e os inimigos assumidos de Bolsonaro estariam dentre aqueles que mais fariam para que esse fato se tornasse um grande evento. Mas, se isso não ocorrer ou então, o que é mais provável, que ele seja condenado e que depois a punição seja considerada extinta, nada muda: a política consegue se alimentar do que vier pela frente, uma vez que isso é da natureza dela. Significa que podemos dizer que pouco importa se o político será ou não preso, se será ou não condenado ou considerado livre de todos os supostos atos ilícitos que cometeu.
É sobre esse gap no modo de participação política que mencionamos aqui. A detração de políticos nos séculos passados poderia produzir um estado de coisas que viesse a dificultar o retorno aos cargos majoritários. Não mais. As manchetes que colocam em evidência os testemunhos de que o ex-presidente tramava e organizava um golpe político tanto alimentam aqueles que cultivam o ódio pelo ex-presidente quanto seu número de seguidores aumenta.
Na minha bolha de redes sociais vejo que o desejo obsessivo de se manifestar e mendigar engajamento leva as pessoas de esquerda a melhor funcionarem como mantenedores da metafísica de direita. Esse sendo o paradoxo: ao ter que demarcar a sua posição política como uma credencial para os seus iguais – quem lhe contratou, quem tem bons contatos no trabalho, as pessoas que você conta para o fechamento de um projeto, de preferência na área da cultura, etc. – você coloca mais holofotes na campanha dos opositores dos quais aparenta possuir ódio, asco e nojo.
E você, que é rápido feito um corisco quando da postagem de temas sensíveis à política e que tem para si uma clara distinção entre os dois espectros ideológicos mais citados. Você, que programa encontros com inimigos cordiais somente para aumentar o seu repertório quanto ao que irá colocar nas redes. Você, que pareceu se emocionar quando da exibição da prisão e da soltura de um presidente da república ou quando da ocorrência do vandalismo em Brasília. Você toparia trocar a sua postagem sobre política nas redes e passar a falar somente sobre temas que nada tenham a ver com ela? Você faria isso ou deseja continuar fazendo a propaganda do candidato que você diz odiar? Se a segunda alternativa é a sua preferida, continue a torcer para que Bolsonaro seja condenado para que os seus índices de aprovação cresçam ainda mais: os partidários do ex-presidente contam com você.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

