
“O isolamento crescente das elites significa, entre outras coisas, que as ideologias políticas perderam contato com as preocupações dos cidadãos comuns. Já que o debate político se tornou restrito, em sua maioria, às ‘classes falantes’, como passaram a ser caracterizadas, ele também ficou restrito a fórmulas. As ideias circulam e retornam na forma de palavras de ordem e de reflexos condicionados. A velha disputa entre a esquerda e a direita exauriu sua capacidade para clarificar qualquer tipo de assunto e providenciar um mapa confiável do real. Em alguns cantos, a própria ideia de realidade é questionada, talvez porque as classes falantes já habitam um mundo.” Christopher Lasch. A revolta das elites (Portuguese Edition) (p. 87). Edições 70. Edição do Kindle.
Voltemos a Christopher Lasch, partindo da mesma obra mencionada na coluna anterior. Um ponto a mais dos vários que fazem merecer a nossa atenção. E isso porque o autor demonstrou acerto e atino no diagnóstico do que passava na democracia norte-americana, o que não deixa de ser um prenúncio do que posteriormente iríamos todos constatar.
Já falamos das elites e de como elas se distanciaram da vida em comunidade, o que é bastante tenso para um analista que recuperou o diferencial da opção pela democracia nos Estados Unidos do século XVIII. Vamos então acompanhar a origem do desinteresse popular na política. A citação acima foi retirada de um capítulo chamado, “A democracia merece sobreviver?”. Lasch se refere às elites como “classes falantes”, isto é, o grupo de pessoas que detêm o monopólio da compreensão e do julgamento do fazer político. Esse cenário, que se dispõe como se fora uma distopia, nos apresenta uma situação em que os temas políticos já não mais mobilizam o senso comum, as pessoas de carne e osso, tomadas e oprimidas pelos problemas do cotidiano. Essas situações cotidianas sequer possibilitam alguma associação com a política e, de tal forma ela veio a se abstrair, tornando-se um assunto para especialistas.
Preocupado com isso, Lasch sinaliza que a mídia – A opinião pública (1922), livro de Walter Lippmann, bastante mencionado – veio afastar o debate de uma população mais ampla, uma vez que ela veio a se interpor, atuando então como provedora dessa reflexão. E, o que parecia ser uma orientação ciosa, tornou-se um muro que separou o cidadão comum da atuação política antes existente. Nesse sentido, vale ler o que o autor descreve como sendo o debate político a partir da segunda metade do século XX. Diferente do passado norte-americano – os debates entre Abraham Lincoln e Stephen Douglas em 1858 seguem bastante citados – Lasch salientava que no presente momento, os candidatos mais se preparavam para as respostas às perguntas feitas pelos jornalistas, sempre mal preparados e mais preocupados com o que pudesse dar audiência. O povo comum e suas questões sequer importava. E já no século XX, a queda de participação nas eleições já lhe chamava a atenção e indicava o desinteresse cada vez maior por parte da população.
Essa é a configuração que dá espaço para que se fale de dois mundos, distantes entre si o bastante para que sejam incomunicáveis. Mas os debates somente são um dos sintomas desse feito. O outro se refere à elitização do tema da política. Já não nos referimos aos políticos eleitos como participantes de uma elite, mas sim, aqueles que são hábeis o suficiente para se manifestarem em relação a esse assunto e, de tal forma, ele se tornou fechado.
Sem que pensemos em uma teoria da conspiração, essa coreografia se mostra viável na medida em que dá aval e legitimação para o prosseguimento das duas realidades. Uma que segue o roteiro da lida com o cotidiano – a vida como ela é – e outra, envolvida na teia do fazer político profissional. Retomemos aqui o quanto de conhecimento específico é necessário para se compreender o trâmite de uma proposta no parlamento para que se configure em uma lei. Recuperemos também as chicanas envolvidas no âmbito do poder judiciário, o que parece necessitar que todos sejamos formados em direito para minimamente poder arriscar uma opinião.
Há algo de errado nisso tudo? Aparentemente não, ao menos é o que se percebe no andamento do negócio. A política, quase que como uma entidade, segue o seu próprio caminho sem que dê importância para os personagens coadjuvantes que uma vez protagonizaram a história. As palavras de ordem que candidamente clamam pela importância da participação popular nada mais são do que uma manifestação estética, quando muito. Na maior parte das vezes, trata-se de uma senha para o envolvimento daqueles que pensam como você.
A participação popular, quando vem a ocorrer, se faz de uma maneira direta e que reflete uma compreensão pura da realidade estando ela ligada às necessidades básicas de sobrevivência. O povo se sente constrangido por participar de algo que se acostumou a ser feito sem a sua presença. Do modo como vem sendo tratada, a democracia se tornou apenas um mote para a permanência de um mesmo quadro, o que na prática, sequer é percebido como virtuoso para o comum dos mortais. De perto, ela parece mais se tratar de uma situação cujos protocolos são desconhecidos e exclusivos. Como justificar a importância da democracia hoje, sem parecer ingênuo ou cínico, eis uma questão que poderia mobilizar uma reflexão.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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