
O jornalismo enviesado e que demonstra com ênfase o lado político-ideológico que defende poderá contribuir para o aumento significativo de opositores à sua orientação? Melhoremos a pergunta. Esse veículo de imprensa apresenta quais perfis de público como alvo? Há algum tipo de segmentação de audiência e se sim, ela tem por base quais critérios? Pensa-se em gênero, raça, faixa etária, repertório cultural, gostos e afinidades por entretenimento, gastronomia ou viagens? Lembremos que cada um desses aspectos tende a estabelecer recortes mais específicos e que serão providos por atitudes e comportamentos num nível de filigrana.
O conjunto geral da obra pode sim se conformar num temperamento ou em algo bem definido e de acesso cifrado, bastando para tal que algumas pessoas se sintam no domínio do tipo de narrativa e dos temas que são tratados. Por sua vez, pode-se igualmente se sentir um corpo estranho, um penetra, alguém que nem de longe consegue decifrar sequer o que vem a alçar a condição de notícia e o que não. Mas não é somente isso. Lembro-me de amigos que estudaram em colégios cuja proposta era a de network, buscando estabelecer laços entre todos os que faziam parte da comunidade. Mas nem todos se integravam e pensavam: por que deveríamos? Desnecessário dizer que eles passaram a odiar a escola, entendendo que havia agressividade passiva em relação àqueles que eram considerados desgarrados.
Mathieu Bock-Côté (O império do politicamente correto. São Paulo: É Realizações, 2020) e Philippe Murray (O império do bem: a ditadura do politicamente correto. São Paulo: AVIS RARA, 2022) compreenderiam bem essa atitude uma vez que entendem que a prática do politicamente correto no contemporâneo tem traçado uma fronteira nítida entre os que entendem toda a dinâmica do vocabulário, as expressões e as demandas, outros que reconhecem os termos dessa narrativa, mas que julgam que ela seja equivocada, e finalmente, aqueles que sequer se atentam para tudo isso, na medida em que estão segregados de toda essa parafernália específica. De acordo com os autores:
“Quer-se acreditar que, se a mídia houvesse realizado melhor seu trabalho pedagógico, o povo não teria tido o despudor de votar mal. Isso é esquecer aquela observação já antiga de Philippe Muray, de que ‘nunca é apesar dos artistas, ou porque estes não fizeram o suficiente nos terrenos industriais baldios onde há tanto tempo gesticulam e exibem sua miséria arrogante, mas justamente pelo fato de já terem feito demais que o voto horroroso se multiplica’. Vamos traduzir muito concretamente: é provável que não haja nada melhor do que um concerto antiTrump para gerar novos trumpistas”. Bock-Côté, Mathieu. O Império do Politicamente Correto, p. 36.
O reforço negativo aqui, pode ser explicado pela obviedade, ou seja, quando você já supõe o que aquele veículo vai dizer, como vai narrar um fato e até mesmo o que ele vai estabelecer como um. E quando falamos em temperamento, pensamos no que vem a agregar elementos mais subjetivos e que venham a se configurar como uma personalidade. Esse pode ser um achado significativo na medida em que no contemporâneo, os valores morais, a orientação política, de gênero ou raça e a predileção por uma cidade e dentro dela, um bairro, contam muito para que se venha a forjar uma identidade pessoal. E sendo uma questão pessoal, tendemos a nos afastar da razão e a agirmos de um modo mais apaixonado, para o bem ou para o mal.
Órgãos de imprensa que franquiam o acesso dos leitores que desejam comentar são importantes fontes para essa percepção. O nome do jornal é alterado de acordo com o que o leitor entende como uma abordagem viciada em relação aos acontecimentos escolhidos como tais. Os comentários transparecem com ênfase a raiva por conta de um entendimento por parte do jornalista ou do colunista. As opiniões têm suas cores bem carregadas e tudo o mais se parece o oposto da discrição. Rompantes como as falas de que a assinatura será cancelada ou como esse jornal mantêm essa pessoa que se julga tal e tal são bastante presentes.
Em vista disso, sim. O andamento mecânico e inercial através das modas midiáticas, quase sempre importadas dos Estados Unidos, terminam por confirmar que nada se aprende na leitura desses veículos de imprensa. No mais, eles somente confirmam as nossas expectativas quanto aos recortes que são feitos. Com pouca dedicação já conseguimos supor quais serão as perguntas em uma entrevista, bastando para tal, saber quem é o entrevistado, se é alguém que faz parte dessa patota ou não. Não precisamos da IA generativa para saber quais seriam as perguntas feitas para um nome consagrado da MPB ou do teatro e cinema nacionais. E o mesmo poderia ser dito em relação a uma liderança de uma denominação religiosa evangélica, uma autoridade do governo de Israel ou de Cuba.
Ou estamos falando da imprensa como algo que não nos chama mais a atenção ou então, estamos abordando uma iniciativa entediada de se falar sempre o mesmo. Para Bock-Côté, é mais exatamente esse estado de coisas que tem conduzido muitas pessoas para a busca de informações em outros órgãos que não os costumeiros e tradicionais. Para essas pessoas, fake news ou pós-verdade, fazem parte da reserva de mercado moral, ou seja, uma maneira de se buscar a definição do que se é a partir da detração de quem exerce o direito de pensar de modo diferente.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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