Behavior

Sobre a sensação de nos sentirmos realizados no trabalho

Nas muitas voltas do raciocínio dedicado a parecermos fofos, nos deparamos com falas tautológicas que nos foram impostas pela ditadura woke e que nos impelem a sempre nos torturarmos tendo em mente algum tipo de estrutura que cremos, inconsciente, e que nos faz reproduzir com constância e dedicação a opressão que se manifesta sobre todas as minorias existentes na face da terra. O sentimento de culpa mimetizado a partir dessa abordagem parece ser bebido na fonte inesgotável de narrativas presentes no credo religioso quando manifestado nas escrituras. Digo mimese uma vez que julgo bastante difícil a ocorrência de uma culpa genuína, uma vez que produzimos aparatos de toda sorte, dos fármacos ao coaching existencial, que fazem que com que seja um tolo aquele que experimenta se sentir culpado tout court.

Seguidores desavisados do bom mocismo sistêmico se equivocam – lamento dizer – quando se sentem imunes à transgressão o suficiente para defender e propagar a mensagem de que devamos procurar a nossa realização na profissão que escolhemos, uma vez que nela obtemos um importante estímulo para se alcançar a felicidade. É por isso que produzimos lágrimas de crocodilo quando assistimos a filmes cujas histórias se passam a.d.60 (antes da década de 1960) e que nos mostram pessoas tristes, tendo que procurar apenas o sustento de si próprios ou de sua família – filhos, esposa ou marido, pais e avós – sem se importar se gostam ou não do trabalho que possuem. Nem digo escolher, pois antes da década de 60, isso não existia, segundo consta nas cartilhas woke.

Rimos e nos divertimos com o personagem de Charles Chaplin em meio à linha de montagem, tendo que ajustar o seu tempo à esteira da produção de qualquer coisa que ele sequer tem ideia do que seja. Pode ser até que lamentemos a má sorte de personagens reais e que deram a inspiração ao grande ator, mas o fato é que manifestamos em alto e bom som a nossa divisa: meu trabalho tem que me trazer felicidade e me fazer sentir realizado.

Defendo aqui que a crença de que o trabalho deve ser fonte da nossa felicidade é um marcador de comportamento que separa uma elite de todos os outros que somente trabalham por necessidade confessada. Quem de nós não ficaria constrangido em perguntar para muitos cujo trabalho é monótono e repetitivo se eles se sentem realizados em relação ao que fazem?

Edgar Cabanas e Eva Illouz (Happycracia: fabricando cidadãos felizes. São Paulo: Ubu Editora, 2022) devem ser introduzidos nessa reflexão uma vez que encaminharam esforços na direção de recuperar a história das nossas expectativas em relação ao que escolhemos nos dedicar profissionalmente e, em especial, na direção da observação de outras mediações digamos, metafísicas, havidas entre nós o que fazemos para ganhar a vida. De acordo com os autores, a administração científica elaborada por Frederick Taylor (1856-1915), valeu-se da observação empírica de operários que não estavam nas indústrias por terem escolhido as suas profissões, mas sim, porque necessitavam sobreviver. Sendo assim, tratava-se de um período “pautado nos empregos” e na otimização da produção. Hoje estamos distantes cronologicamente desses acontecimentos, porém a preocupação com a produção persiste, mesmo que o foco tenha se dirigido para as pessoas.

Essa alteração somente pode ser interpretada pela troca de mediadores entre os trabalhadores e a necessidade de se manter o comando na linha de produção. E a grande mediadora dos tempos pós-década de 60 é a psicologia humanista, cujas origens se encontram em Carl Rogers (1902-1987), Abraham Harold Maslow, (1908-1970) dentre outros. Assim, de acordo com os autores:

“A onipresença da noção moderna de felicidade na esfera do trabalho deve ser vista como um passo adiante na gestão do comportamento dos trabalhadores em termos de psique. A partir dos anos 60, a linguagem psicológica das emoções, da criatividade, da flexibilidade cognitiva, do autocontrole etc. passou a funcionar progressivamente como um disfarce eficiente para os déficits estruturais no reconhecimento profissional e para os paradoxos e contradições inerentes característicos dos ambientes corporativos atuais. (…) Em outras palavras a psicologia das emoções facilitou cada vez mais que as responsabilidades individuais pelos déficits estruturais do ambiente de trabalho fossem atribuídos aos empregados”.

É mais exatamente por isso que sequer percebemos como cínicas as expressões naturalizadas pelo cotidiano tais como resiliência, enfrentamento, desafio ou realização pessoal. Um indício de que sejam de fato falaciosas pode ser obtido na atenção às pessoas que as pronunciam e que parecem acreditar no que dizem. Esses são alguns dos gestores contemporâneos que de tão falsos, fazem de seu infortúnio e mediocridade, meios de motivação para tantos que se encontram na condição da mais pura e necessária dependência do que ganham para sobreviver. Todos enfim, estando muito longe de qualquer tipo de realização pessoal.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.