
Entre intrigados e estupefatos, nos deparamos com os modos e maneiras de se capitalizar a atenção através da política que se faz no contemporâneo. Assim, perguntamos por parâmetros a serem levados em consideração e que venham a configurar um critério para quem deseja concorrer a um posto político. Uma primeira questão que se coloca é por que desejar se candidatar? Mais especificamente, se se busca atuar nas frentes legislativas ou no executivo. Por que essa opção se coloca como viável dentre as muitas possibilidades de escolha quanto ao que ambicionar e fazer?
Uma vez que pensemos de um modo idealizado, na linha da folk theory, como dizem os norte-americanos em relação à credibilidade da democracia naquela nação, trata-se de encontrar em si mesmo algo próximo de uma vocação. Do ponto de vista mais prático e afastando-se dessa perspectiva sonhadora, podemos crer que a presença da cultura política em uma família auxilie na perpetuação dessa opção profissional. Assim, a participação em assembleias estudantis, sindicatos, nos encontros informais com políticos, contribui na desmistificação e no acolhimento dessa atividade.
Pode-se gostar de fazer política? Essa é uma impressão propalada e que pode explicar a permanência incólume daquele que foi caçado, sofreu impeachment, foi preso ou veio a sofrer uma fragorosa derrota eleitoral. O senso comum diria que os políticos têm o corpo fechado, até pelo fato de que se tem a impressão que vivem por muito mais tempo que o comum das pessoas. Seria o poder um vício ou um elixir que sempre oferece a possibilidade da renovação? E sobre o poder, haveria um temperamento adequado para ombreá-lo e que fosse capaz de realizar a perfeita dosagem entre duas posições antagônicas, como vaidade e humildade?
Sentimo-nos estimulados a pensar se a política é um meio para se alcançar os objetivos pessoais na utilização estratégica de outros agentes que não teriam condição para a liderança ou se estamos tratando de uma escolha por servir ao bem público. E também recorremos aos perfis. Quando se trata de alguém que aparenta dominar a área do conhecimento técnico para melhor compor uma equipe ou se somente se nota o carisma e a capacidade de produzir empatia. Para várias dúvidas, seguramente, diferentes respostas.
O tempo passado nem sempre nos ajuda na medida em que nos deparamos com quem nomeou o seu cavalo a um alto posto da política de Roma antiga ou quem elegeria um rinoceronte como vereador da cidade de São Paulo na década de 1950. No entanto, o conhecimento histórico, ou mesmo o pessoal, costuma sinalizar a existência de personalidades políticas do passado que possuiriam maior envergadura, tais quais Winston Churchill, Theodore Roosevelt ou Mahatma Ghandi.
Na democracia moderna, a pergunta que se coloca é a do critério de escolha da maioria que irá eleger alguém. Como ela se forma? Questões que nos obrigam a conhecer Alexis de Tocqueville (1805-1859) e sua Democracia na América (1832). Ou então a retomá-lo uma vez que é difícil supor que não tenha vindo a estabelecer um vaticínio que continua absolutamente validado a cada processo eleitoral que se inicie e que se conclua. Agradar a maioria sendo o mais importante objetivo de quem se candidata a um cargo público. Poderia ser diferente?
O contemporâneo tem nos tentado em opções que pareceriam fadadas a morrer na praia uma vez que constrangedoras. Mas o contexto em que vivemos tem elevado a régua para além do que poderíamos supor como passível de se corar. Vemos isso na política, mas também naquela que se faz de forma minúscula, nos bastidores das lutas mesquinhas por se permanecer num posto de equivalência à gerência ou à coordenação de um curso.
Ser conhecido por ser conhecido – uma variação do ser famoso por ser famoso, célebre afirmação de Daniel Boorstin no The image: a guide to pseudo-events in América, publicado em 1962 – é a meta de alguns fundistas nas eleições atuais. Cases por meio do ridículo que se dispunham a realizar num passado mais ou menos recente parecem ser uma referência para as candidaturas contemporâneas.
Nada enfim que não fosse notado por observadores argutos tais como Mario Vargas Llosa, como pode se perceber a seguir:
“Na civilização do espetáculo, infelizmente, a influência exercida pela cultura sobre a política, em vez de exigir que esta mantenha certos padrões de excelência e integridade, contribui para deteriorá-la moral e civicamente, estimulando o que possa haver nela de pior, como por exemplo a mera farsa. Já vimos que, no compasso da cultura reinante, a política foi substituindo cada vez mais ideias e ideais, debate intelectual e programas, por mera publicidade e aparências. Consequentemente, a popularidade e o sucesso são conquistados não tanto pela inteligência e pela probidade quanto pela demagogia e pelo talento histriônico. Assim, ocorre o curioso paradoxo de que, enquanto nas sociedades autoritárias é a politica que corrompe e degrada a cultura, nas democracias modernas é a cultura – ou aquilo que usurpa seu nome – que corrompe e degrada a politica e os políticos.” (A civilização do espetáculo: uma cronologia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, pp. 117, 118)
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

