Behavior

As causas infantilizadas diminuem a importância do que poderia ser levado em consideração

If you prick us do we not bleed? If you tickle us do we not laugh? If you poison us do we not die? The Merchant of Venice, Act III scene 1

As modas libertárias se constituíram em grave problema na modernidade. Em especial, elas são o produto mais visível e ruidoso das expectativas estimuladas pela mesma modernidade. Como haveria de ser diferente uma vez que o transe coletivo somente pode se instalar quando se aceitou de modo incondicional que todos estaríamos adentrando uma nova era na qual as mazelas do passado seriam esquecidas e superadas. E quando isso não acontece, a responsabilidade seria remetida ao que se convencionou chamar de reacionarismo.

Seres frágeis que somos, costumamos acreditar no primeiro conto do vigário que nos é apresentado, bastando para tal um jogo de palavras específico, mediado por gestos expressivos e que signifiquem algum tipo de libertação. Com música e atores então a coisa fica bem mais fácil. Creio que seja por isso que mesmo o mais crédulo nas modas libertárias não teria dificuldade de desempenhar o papel de servo na Idade Média europeia. E digo mais, seria tão cruel com o próximo se isso fosse a regra nas atitudes naqueles tempos.

Num mundo em transformação, assim como aquele dos meados do século XIX, a dialética parece ter batido na porta de muita gente, inclusive aqueles que se investiram de otimismo e da sanha da libertação de todos os grilhões. As falas e discursos daquele período bem convenciam o mais comum dos mortais, mesmo porque eram enfáticas e ouvidas em alto e bom som. É bem conhecida as alusões à presença de traços confessionais dentro da liturgia marxista, em especial é claro, no Manifesto Comunista.

A primavera dos povos surgindo no horizonte como se fosse um tipo de nostalgia do futuro. Dê-me uma utopia para chamar de minha que eu viverei por ela até o fim dos dias é um bom mote dentro desse contexto. Países sérios se envolveram nessas crenças que vieram a mobilizar práticas concretas de liberação, sejam manifestadas em revoluções, independências ou experiências comunais. Países como o nosso criaram um arremedo de transformação fundamentada em uma independência que não contou com vivalma que viesse a se envolver ou em uma república que nunca existiu. Tanto um caso como o outro, foram somente roupas trocadas por outras que pareciam mais novas, nada mais.

Ansiamos a modernidade a partir das migalhas que nos chegaram mesmo que sempre predispostos a manter o mesmo status quo das Capitanias Hereditárias. Não foi o que ocorreu na Europa ou nos Estados Unidos, locais em que definitivamente se viu e se vivenciou as transformações sociais que deram suporte e justificativa para a crença num tipo de evolução social e humana. Os Estados Unidos em especial, dada a ingenuidade de origem, o provincianismo que deu suporte para que as referências de cultura ou moral fossem somente obtidas internamente, destacou-se na produção de modas lacrimogêneas que se estabeleceram na busca pela felicidade e pela igualdade, mesmo que a liberdade tenha sido por demais complexa para o entretenimento daquele povo.

É assim que chegamos às causas identitárias embaladas por um discurso superficial e infantil de liberação. Não que os problemas que deram oportunidade para a eclosão desses movimentos não venham a fazer sentido. Mas é quanto à forma de cooptação de mais seguidores que as fragilidades se manifestam. O que fazer com o fogo amigo tem sido uma sonora contradição para movimentos que partem da crença de que raça ou gênero possam ser vistas como imaculadas. O melhor seria que, na ambição de nos vermos como de fato somos – iguais em direitos, obrigações e responsabilidades – não nos prendêssemos aos fenótipos como se estivéssemos disputando uma partida de futebol contra o nosso principal rival.

Chegarmos ao ponto da aceitação de que qualidades positivas ou negativas são igualmente compartilhadas pressupõe um nível de amadurecimento que o mundo ocidental, do modo como o vemos, jamais será alcançado. O ilícito, o cruel, o sem caráter, devem ser vistos a partir dos problemas que causam e não como provocados por uma ou outra etnia, um ou outro gênero.

As palavras de ordem e os refrões que as acompanham fazem com que a infância permaneça por um tempo dilatado mesmo que a pureza inicial seja trocada pela ignorância e oportunismo, típicos de quem já envelheceu e ao menos percebeu minimamente as dificuldades cotidianas de sobrevivência. A redução cognitiva se instala e seu modus operandi é tão fraco quanto superficial: esqueça qualquer tipo de esforço na direção do ceticismo e da busca pelo conhecimento uma vez que o nível de reflexão caiu de modo avassalador.

Contudo, não creio que seja possível se desvencilhar dessas modas uma vez que elas se manifestam na organização do nosso mundo, logo quando saímos de nossas camas no começo do dia. Resta a alguns poucos de nós, lastimar a permanência de nossas maiores fraquezas ao mesmo tempo que constatar que todo o humanismo de cepa iluminista se constituiu num retumbante fracasso.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.