
Presunção de novidades é uma das filhas da vaidade de acordo com o filósofo Tomás de Aquino em seu Sete Pecados Capitais, obra de síntese escrita no século XIII. Por filhas, Aquino entendia o modo através do qual o pecado se exibia. Referenciado pela leitura de Aristóteles, o pensador cristão procurava saber como o mal se manifestava empiricamente, ou seja, no contato com os outros ou em si mesmo. Hoje diríamos que esse tema é um objeto de estudo das pesquisas em comportamento humano.
Pois bem, por presunção de novidades devemos ter em mente o desejo de trazer um conteúdo que se julga inédito, não por ser significativo, mas sim por sinalizar a importância daquele que o descobriu e o abordou. No passado, esse tipo de atuação dependia de se encontrar o sujeito ou então falar com ele pelo telefone. Hoje esse tipo se manifesta a rodo nas redes sociais. Eles possuem variedade de atuação. Os motivos podem ser os esportes, cinema e artes ou baboseiras de TV, uma vez que essas figuras ainda a assistem. Os grupos de WhatsApp estão cheios de pessoas, aqui chamadas de o tiozão das redes sociais.
Os indícios que se proliferaram desde a década de 1980 de que a modernidade se esfacelou e que o mundo não nos aparece mais de forma explicada e acolhedora, indicando o certo ou o errado passaram muito longe do tiozão das redes sociais. Trata-se de uma personagem que é capaz de emendar um trecho de uma música de Chico Buarque, mantendo-se no modo nostalgia da vivência política que, aparentemente, evoca seu posicionamento quando tinha 17 anos de idade e se movia dentro do contexto que compartilhava e era pseudocrítico aos autoritarismos de plantão.
Um tipo que, diríamos, envelheceu mal uma vez que para o vaidoso, o tempo é seu grande inimigo e o ressentimento o aguarda em cada esquina. Uma infelicidade então é ver esse indivíduo tentando se ajustar às redes sociais. Num universo tão amplo de possibilidades de provocação de estímulos, o tiozão vaidoso se perde em emojis – tenho dificuldades para entender como um adulto os utiliza – e em tudo o que quer que seja que já foi encaminhado com frequência. Mendigar atenção é uma de suas metas mais nítidas. Mantenha-o sobre controle, dosando os likes ou os joinhas e corações palpitando: isole-os e é a própria morte.
A maior exposição ao ridículo se encontra no comportamento político, uma vez que o tiozão vaidoso se acha e, com bordões do século passado, procura mobilizar a sua galera com chamadas sentimentais de todo tipo. O vale-tudo piegas pode passar por propagandas da década de 60, por trechos de novelas brasileiras ou por textões com fundo emocional. Esse ser acredita que a emoção ainda pode resistir à precificação de quase tudo e investe na categoria das lágrimas de crocodilo. Na real, ele somente quer aparecer e vê palcos e púlpitos em todo lugar.
Suas postagens parecem ralhos uma vez que alertam sobre o que acredita que os outros sequer imaginam ou suspeitam. É uma lavada após a outra e sempre evangelizadoras, de modo a envolver e cooptar o desavisado: o tiozão das redes sociais carrega uma mensagem que faz parecer ser de seu coração, mas que é pura vaidade e nada mais.
Qual a área de prospecção desse cidadão? Tudo em que ele se julga superior e que entende que todos os outros não têm a menor ideia. A impostura tem tudo a ver, bem como o modo de pronunciar as palavras, como se as ênfases nas consoantes e vogais dessem conta do significado e do conteúdo que se deseja expressar. A cada frase pronunciada e mais se lança luz sobre quem as fala e nada sobre o que se pretende afirmar. Nada muda o mundo, apenas se deseja permanecer do modo em que ele se encontra, com a claquete de plantão sempre pronta a se comportar como as focas dos parques de Miami.
Enfim, trata-se de um tipo que deve estar agradecido pelo espaço compulsório disponibilizado pelas redes sociais e que, por isso, pode se manifestar com suas frases de efeito e seus entendimentos da política apequenados. Alguns deles encontraram abrigo na moda woke que habilitou os mais ignorantes em história e política a falarem dela como papagaios estridentes.
Seres lastimáveis que habitam as redes sociais e que não têm habilidade alguma para usá-las. São descendentes diretos das pessoas que bridavam as outras com PPTs com saudações de bom dia ou boa noite, acreditando também que estavam enviando algo que seria festejado e com o que se ficaria agradecido. Porém, no contexto de polarização em que vivemos e em que as velhas rivalidades se manifestam no exibicionismo moral, esse ser vive para se mostrar e demarcar o que julga ser o seu território e campo de domínio. É representante da reserva moral absoluta, uma vez que, como dissemos, não encontrou o seu lugar no relativismo percebido por todo aquele que amadureceu.
Nada do que lhes é apresentado os surpreende uma vez que vive para provar que tudo sabe. Não é por acaso que uma das outras filhas da vaidade se chama pertinácia, ou seja, não assentir a um outro juízo que não é o seu, mesmo que ele seja mais acertado.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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