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O tarifaço de Trump e as conversas de boteco

As últimas décadas do século XX nos predispuseram a crer em um mundo mais empático, liberal e que caminhasse para a erradicação dos totalitarismos. O fim do comunismo nos países do leste europeu, bem como a queda do muro de Berlin, foram eventos unilateralmente assimilados e hoje percebemos o quanto isso fez de diferença em relação ao que veio pela frente. Como caímos na armadilha do mundo melhorado é difícil de compreender. Estivemos presos em uma imensa bolha, e o zeitgeist não foi como prevíamos. Vivemos primaveras enganosas que nos envolveram em narrativas lacrimogêneas.

Mas a preguiça pode ter dado a sua contribuição, particularmente nas análises que se seguiram sem grandes esforços uma vez que pareciam se fixar em um script para o futuro que seria resultado da fé em uma continuidade linear: a prática de lançamentos de gadgets em números que se sucedem nos fez confundir que isso também viesse a acontecer na história da nossa vida sobre a terra. A bolha em que vivemos já se manifestava muito antes do aparecimento das redes sociais e podemos dizer que ela se apresentou nas propostas de melhoria da humanidade a partir de músicas redentoras entoadas por ídolos pop, bisavós dos atuais influencers.

Contudo, o mundo tem aparecido sem máscaras e as antigas mediações servem somente para que constatemos que suas manobras foram frágeis. Na mídia, comentadores imersos na inércia, nada faziam uma vez que sequer tinham tempo ou interesse para os estudos que o contexto mundial sempre lhes exigiu, mas que eles faziam vista grossa, mesmo porque a pouca audiência se acostumou com as ideias sendo enfileiradas do mesmo modo.

É o que percebemos quando do acompanhamento da repercussão das medidas fiscais tomadas pelo presidente Donald Trump no início de seu segundo mandato. Parte significativa da mídia nacional deseja encobrir a falta de empenho manifestando-se com assombro calculado sobre as notícias que nos chegam. É de uma inspiração profética que falamos quando lemos os comentários pessimistas, uma vez que muito distantes das fórmulas rotineiras. É perceptível que seja mais fácil manter-se no aparente enfrentamento do que os governos democratas nos Estados Unidos ou de esquerda, no Brasil, costumam fazer. Não se trata de uma adesão ou de uma oposição, mas sim, da mais mera luta pela sobrevivência. Nossa mídia e a dos Estados Unidos tiveram uma vida muito boa enquanto a política era capitaneada pela esquerda: até nas festas, jantares e teatros todos se encontravam.

Esses posicionamentos políticos encontravam-se na linearidade que abordamos há pouco. Nada disso nos preparou para intempéries ou provações, o que nos sinaliza que o mundo hoje, quando não se ajusta aos sonhos que acreditávamos ser realidade, torna-se somente alvo de palavras de ordem do tipo, negacionista, fascista ou genocida.

As matérias sobre o que não é consensual – especialmente quando a direita chega ao poder – são envoltas em uma grossa camada de frustração e quando não, da ira que a elite pensante manifesta quando gente sem elegância chega ao poder. Esses aspectos são reveladores e podem ser percebidos quando se raspa um pouco do verniz que cobre esse ofício, que já foi visto como o quarto poder.

Lembramos aqui que não podemos contar com a certeza de que tantos sejam tão ciosos como demonstram ser. Os arranjos e acordos no Brasil não são privilégio somente dos políticos de plumagem mais rica. Qualquer negócio que não lese os propositores é uma prática considerada adequada. A maior prerrogativa é se virar muito bem enquanto os outros se ferram.

Para se pronunciar sobre o tarifaço de Trump, seria razoável conhecer a história do vigésimo quinto presidente dos Estados Unidos, William McKinley (1843-1901) que foi mencionado no discurso de posse de Donald Trump. Presidindo na era do colonialismo, McKinley implementou tarifas protecionistas e buscou uma atuação global, especialmente a partir da Guerra Hispano-Americana, ocorrida em 1898. Como resultado desse conflito – iniciado pela acusação da ausência do enfrentamento espanhol na revolta pela independência de Cuba – Filipinas, Porto Rico, Guam e a baia de Guantánamo, tornaram-se domínio norte-americano.

De acordo com o Oxford Companion to United States History (organizado por Paul S. Boyer. New York: Oxford University Press, 2001), McKinley pode ser considerado o primeiro presidente moderno dos Estados Unidos, tendo cultivado uma boa relação com a imprensa, viajado frequentemente para impulsionar seus programas e exercido influência significativa no Congresso. A historiografia o distingue como um estadista que contradisse a tendência norte-americana ao isolacionismo, uma vez que McKinley buscou expandir a influência dos Estados Unidos para além de suas fronteiras.

E se suspeitamos de todas as ações norte-americanas no mundo, é bom lembrar que esse país teve um lugar destacado na derrota das forças alemãs sob Hitler em 1945.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.