
Ilusão dos idealistas. — Os idealistas estão convencidos de que as causas a que servem são essencialmente melhores que as outras causas do mundo, e não querem acreditar que a sua causa necessita, para prosperar, exatamente do mesmo esterco malcheiroso que requerem todos os demais empreendimentos humanos. Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, aforismo 490.
Você é capaz de notar quando as pessoas se valem de um vício alheio para manifestar a sua lisura de comportamento? A literatura já explorou essa situação em grandes obras, sendo A Letra Escarlate (1850), de Nathaniel Hawthorne, um primoroso exemplar. A história da expiação da culpa de Hester Prynne nos introduziu na envergadura do ressentimento que é manifestado na hipocrisia. O pecado de Hester foi ter tornado público o fato de ter se tornado mãe durante o período de afastamento de seu marido que se encontrava em outras terras. Seu maior erro foi não ter demonstrado a eficiência da ocultação de suas mazelas ao céu aberto. A personagem é punida e obrigada a usar uma letra A presa à sua roupa para todo o sempre. Ao andar pela cidade, a exposição da sina de Hester estimulava nos outros a exibição da pureza moral. Desta maneira podemos chegar à conclusão de que, longe de se desejar que o mal não venha a se manifestar, o melhor é que ele se se apresente, pois então franqueamos a exibição da correção moral ao Sol. Uma sociedade pautada pela divulgação de virtudes deveria então saudar a presença do mal especialmente quando manifestado no outro. A perseguição moral aos pecadores é uma oportunidade e tanto para que nossa magnificência ganhe destaque. Como imaginar um moralista hipócrita em silêncio e sem palco?
É ao expiar a sua culpa publicamente que a personagem de Hawthorne dá a oportunidade de quem tantos outros se valham da catarse para que escondam ainda mais as suas mesquinharias. Paradoxalmente, Hester Prynne é capaz de demonstrar mais virtudes do que aqueles todos que a acusam. E quando a sua rotina é colocada no horizonte do tempo, é a sociedade que vai se apequenando e realizando quem de fato é covarde e oportunistas. No entanto, uma ressalva aqui: a história se passa no século XVII e havia ainda uma preocupação com o decoro bem com o reconhecimento público da culpa. Esse é o ambiente que nos possibilita auferir a qualidade trágica da protagonista. Mas essa constatação está longe de eximir a sociedade da hipocrisia. Podemos dizer que é com regozijo e felicidade que se contempla o pecado daquela personagem uma vez que abre espaço para que toda sorte de interesses espúrios ganhem a cena.
Estamos distantes das perseguições aos erros como aqueles percebidos no contexto da Nova Inglaterra uma vez que o conteúdo produzido no contemporâneo tem mais a ver com as pautas liberais encaminhadas pela indústria de entretenimento. Chega a ser incrível observar que muitos dos nossos bem nascidos julgam inclusive ter superado o puritanismo, como se os cancelamentos não tivessem ligação alguma com a moral. A caçada que hoje se faz tem os sinais trocados ainda que as letras escarlates continuem a fazer a felicidade dos exibicionistas de plantão.
No entanto, migramos a moral para a política, assim como ela se constituiu nas redes sociais e no apedrejamento digital que lhe é oportuna. Sair por aí apontando o pecado do outro quando ele se manifesta na direção oposta do que se acredita tem sido o feijão com arroz da política. É uma grade moral que nos aparece quando se acusa uma agremiação política de ser corrupta ou de compartilhar ideias autoritárias na defesa de ditaduras. Fazemos pré-julgamentos rapidamente com os que já nasceram culpados e assim exibimos a nossa retidão perante o público que mais nos agrada. Cores de roupas, gestos com os punhos ou likes no Instagram comprovam a pertinência contemporânea das letras escarlates e essas pessoas bem poderiam exibir em público o sinal de sua vergonha: deveriam ter pudor por terem escolhido um lado e não o outro.
Mendiga-se por aqueles que possam ser marcados como pecadores de tal maneira que poderia felicitar-se pela sua existência. Imaginemos uma sociedade em que não houvesse a lógica do dedo em riste que aponta para o pecador ao lado? Fosse a magnificência uma realidade empírica e poderíamos dimensionar a robustez de nossa pobreza de espírito. A excitação presente na felicidade com que nos deparamos com os inimigos públicos é um reflexo da nossa colossal falta de importância. Como são felizes os medíocres!
Do modo como nos encontramos no contemporâneo, a verdadeira felicidade é se deparar com aqueles que julgamos pecadores. É somente assim que podemos transformar a nossa insignificância em moedas. Penso nisso toda vez que me deparo com os heróis do cotidiano que se vangloriam de seus sucessos ao se mostrarem tão incorruptíveis como os santos. Ah, que falta faz a consciência do quão desprezível se pode ser!
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

