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A síndrome do degredado

E deste mesmo modo se hão os povoadores, os quais, por mais arraigados que na terra estejam e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal e, se as fazendas e bens que possuem souberam falar, também lhes houveram de ensinar a dizer como aos papagaios, aos quais a primeira cousa que ensinam é: papagaio real para Portugal, porque tudo querem para lá. E isto não tem só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída. Donde nasce também que nem um homem nesta terra é repúblico (sic), nem zela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Frei Vicente do Salvador. História do Brasil, 1627.

As guerras culturais têm ocupado espaço nas mídias contemporâneas e por um motivo bem simples. Grande parte da produção de conteúdo no ocidente é pautada por uma afinidade de butique com os ideais humanistas que, mais próximos de nós, ganharam as cores esmaecidas dos tons de vermelho. A preferência por esse viés político somente pode ser verificada pela franca aceitação das narrativas açucaradas que há algum tempo se fazem e são divulgadas pelos produtores de storytelling – que hoje é o que resume o que é feito no cinema ou na literatura nacionais. Essas áreas mimetizaram o pensamento, mas nem de longe passam perto dele.

Não é viável e nem eficaz que se procure por raízes mais profundas uma vez que elas se encontram em algum lugar do passado e muito distantes do ponto zero dessas elaborações, a saber, o final da segunda metade do século XX. A atmosfera daquele tempo foi mantida ligada a instrumentos de tal forma que sua presença se dá com a reverência de quem experimenta alguma gravidade lapidar. Apesar de toda a prescrição dos riscos do contato com o passado, esse período ainda se mantém indelével e conforta os muitos que ainda bebem dele como se fosse um chazinho de camomila.

No nosso caso, em que memória somente é pronunciada quando da preocupação com a definição de um diagnóstico médico, o aparato de manutenção guarda proximidades com a sustentação inercial do fazer político, o que entre nós é quase um jogo de rouba-monte. Leigos em Maquiavel fingem catarse quando algum evento lhes comprova que estejam do lado do bem, como se esse lugar fosse universalmente possível na seara da política. Torcer por um veredito e felicitá-lo como se um gol fosse é bem brega mesmo que esse seja o dress code por essas bandas: o Brasil dá de dez a zero no estoicismo.

Francos defensores de ditaduras em outras épocas ou lugares expressam a sua preocupação com a liberdade e fingem comungar nessa religião. Não em nosso país em que a política se faz nos conchavos que se aprendem dentro de casa, se ela for brindada pela intimidade junto aos hábitos que são comunicados desde a colônia.

Mais respeito teríamos se como Iago, compartilhássemos a pequenez das nossas aspirações, o suficiente para rivalizar-se em protagonismo com Othelo. Assumíssemos como cidadãos esculhambados de uma nação ridícula e poderíamos inspirar um mínimo de compaixão, aquela caracterizada nas personagens de Dostoiévski. Mas, não se trata de respeito, educação ou consideração, mas sim da perpetuação dos lugares oportunos.

Festejar eventos políticos tem sido uma maneira de divulgar a si próprio como se santo fosse. É assim que histórias são esquecidas e que penitências somente têm o seu lugar na privacidade, isto é, se forem reais e de coração: o catolicismo nos caiu como luva até porque transformamos Deus em nosso parceiro na embromação a que temos direito já que somos frágeis e condescendentes com nossas maiores fraquezas. Quem não pecou que atire a primeira pedra bem poderia substituir a frase estampada na nossa bandeira.

Alguns poucos que têm essa oportunidade conseguem se limpar de todas as máculas e são aceitos como pródigos que voltam ao lar. Especialmente se entre eles contar quem atua nos conteúdos enjoativos que são destinados aos gatos pingados que vivem no exterior.

Costumo experimentar constrangimento quando narrativas edulcoradas chegam até mim através da manifestação de um grande feito político. A vergonha alheia se dá quando se é exaltada uma atitude atribuída a um poder republicano que é contada como genuína ou grandiosa. Sinto-me como observador passivo de uma tragédia que faria corar Aristóteles pela ausência mais visível da catarse. E como ela seria possível sem qualquer imitação do que vivemos no cotidiano?

E isso acontecendo como se a identificação política plena tivesse mão única, derivada que é de sangue e sobrenomes para lá de específicos. Nada consta em relação àqueles que podem pensar e avaliar de um modo diferente desse grupo seleto. Educação formal e curso superior em nosso país ainda se resolve no “você sabe com está falando” e até a defesa da democracia incorre nessa sina. O desejo dessa galera é se afastar da marca do degredo, do rebaixamento de grau dos primeiros europeus que por aqui aportaram. Deve ser por isso que se aprendeu a emular dignidade nessa atmosfera de insalubridade moral em que nos trombamos.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.