
Tenho o prazer de publicar, mensalmente, a coluna OUTSIDER, cuja existência se deve ao encorajamento de Andréa Kogan e Luiz Felipe Pondé. Por vezes oferecerei ao leitor textos longos e informativos, por vezes textos curtos e provocativos, além dos inúmeros tons de cinza que há entre esses extremos. Que não se prendam à forma. A única constância aqui será a sinceridade do autor: sinceridade que só se alcança quando se é um outsider.
Quem já lecionou no Ensino Médio sabe o quão difícil é tornar as aulas atrativas para seus alunos. Aliás, já há algum tempo é difícil atrair a atenção de quem quer que seja para qualquer coisa que dure mais do que quinze segundos. Os adolescentes andam cada vez mais imbecilizados e o mundo cada vez mais adolescentizado. Até aqui, nada novo. Nesse caos, tentei desenvolver algumas táticas para convencer os estudantes de que valia a pena olhar para a minha cara e me ouvir por algum tempo.
Uma delas foi a “leitura de mentes”. Eu dizia: “vou adivinhar quais são seus planos/desejos para o futuro. Vocês não veem a hora de terminar a escola. Importa mais passar de ano do que aprender, já que o que vocês (não) aprendem aqui não têm nada a ver com as profissões que querem exercer. Seria legal estudar em um lugar bacana, mas vocês já sabem que vale mais ser bem relacionado do que ter o nome da faculdade x ou y no currículo. Até porque, em alguns casos, nem há curso universitário para aquilo que vocês querem fazer. Assim que começar a entrar dinheiro suficiente – o que, se Deus quiser, será daqui a uns três ou quatro anos no máximo! – vocês pretendem sair de casa, indo morar sozinhos ou com algum(a) colega. E é aí que as coisas começarão a ficar boas. Cartões de crédito com limites em expansão, academia todo dia, festas todo fim de semana, jantares em lugares hypados, muitas, muitas viagens… Nada de relacionamentos sérios antes dos 30. O negócio é curtir, conhecer muita gente. Depois, sei lá, talvez perto dos 40, as moças comecem a pensar em maternidade, com ou sem um companheiro. No que diz respeito aos rapazes, talvez um pouco mais tarde, isso se for o caso…”.
A quantidade de “clientes satisfeitos” com minha adivinhação sempre girou em torno dos 90%, tendendo a ser menor em escolas públicas, onde os evangélicos e os que não viam à frente de si qualquer futuro além do próximo baile funk compunham um grupo considerável. Claro que o leitor e eu sabemos que o sonho daqueles 90% vai, em quase todos os casos, ser frustrado ou pela economia brasileira ou por uma gravidez indesejada (se não pelos dois simultaneamente). Mas não me interesso agora em fazer sociologia tupiniquim. O que me chama a atenção no sonho de nossos jovens é algo muito mais amplo e profundo, algo que serve como termômetro de nossa era e de nossa civilização.
Note-se que não faz parte desse teenage dream qualquer consideração a respeito de quem os jovens querem SER, sendo todo ele voltado ao que pretendem experenciar. Tudo se resume a experiências consumistas, orgiásticas, gastronômicas, turísticas – e, de preferência, tudo isso misturado e mais um pouco. Nesse contexto, nem mesmo a preocupação com os exercícios físicos aponta para aquilo que se quer ser, já que não se vai mais para as academias para se SER saudável, mas para se ter um determinado corpo que, por sua vez, será veículo de mais experiências. Será essa situação causada pelo “capitalismo malvadão” que, indiscutivelmente, lucra cada vez mais com a venda de experiências? Não creio. Colocar o sistema capitalista como causa primeira de um tal estado de coisas é, como dizem os exorcistas, exagerar o poder do demônio. Na verdade, o buraco é bem mais embaixo do que sonha nosso vão economicismo.
Uma boa hipótese para guiar a arqueologia dessa tara por experiências é a ensaiada por Tristán Garcia em La vie intense (A vida intensa), que inspira minhas análises a seguir. Até o início da Modernidade sempre se acreditou na ideia de que cada ser possuía uma essência, uma “receita” segundo a qual surgia, crescia, atingia o ápice de seu desenvolvimento e desaparecia. Tudo tinha uma meta pré-estabelecida a ser alcançada que, no caso do ser humano, era determinada pela natureza (entendida como ministra dos deuses) e pela tradição (ela própria apenas uma tradução da natureza em termos histórico-culturais).
Ao longo do século XVII, contudo, o cosmos composto por essências começou a ser substituído por um universo feito tão somente de coisas cuja única característica era sua extensão. O mundo das ideias platônico era eclipsado pelo espaço homogêneo e pela res extensa de Descartes. Simultaneamente, o cientificismo baconiano limitava o conhecimento humano ao que podia ser captado pelos sentidos ou por instrumentos que maximizavam sua perspicácia. A realidade virava assim uma massa uniforme de sabe-se lá o que, da qual nada se podia conhecer além de suas variações matematizáveis. A investigação do “o que” e do “para que” das coisas foi gradualmente substituída pela investigação do “como” e do “quanto”.
As consequências antropológicas dessa drástica mudança de paradigma começaram a se fazer sentir a partir do século XVIII. Céticos quanto à existência de qualquer essência, os homens deixaram de se ver como seres com uma natureza própria – e, portanto, como tendo que obedecer a certas regras para alcançar sua realização e felicidade – e começaram a se ver como um fluxo energético que, enquanto tal, teria tanto mais valor quanto mais intenso fosse.
Desde então, o homem ocidental foi gradualmente deixando de se questionar sobre o “o que” e o “para que” da vida (questões de sentido) para se focar no “como” e no “quanto” (questões de performance). Com Sade aprendemos que não importa o objeto de nosso desejo, desde que nos desperte uma comoção violenta. Com Nietzsche aprendemos que a volúpia pela vida é mais importante do que nos adequarmos a qualquer padrão moral. Com os rockstars aprendemos que temos que “viver rápido e morrer jovens”, temos que ser intensos como os raios e trovões que povoam suas letras – que, só por isso, se mostram herdeiras do Romantismo e do Simbolismo.
Voltando à questão específica das experiências, agora já estamos em condições de compreender qual sua função no mundo contemporâneo: manter a intensidade da vida. Se no mundo do trabalho a monotonia cartesiana guia todas nossas ações (uma vez que com dinheiro não se brinca), na vida pessoal quem dá as cartas é o outro lado da moeda: a busca por intensidade, a vontade de sentir-se vivo “apesar de tudo”. A vida do ocidental divide-se, assim, em dois momentos desconexos. De modo geral, nos dedicamos anestesiados, por cinco dias, à acumulação para, no sábado e no domingo, termos experiências – tempo sagrado separado do profano que o antecede por uma fórmula mágica: sextou!
As experiências, apesar do prazer momentâneo que certamente trazem, são incapazes de se incorporar à tessitura da existência de quem quer que seja. Ainda que se pretendam momentos intensificadores da vida, elas, na verdade, são suspensões da realidade. Não são partículas agregadoras de sentido, mas vazios idílicos que só tornam a segunda-feira ainda mais depressiva. Experiências são carreiras de cocaína: nunca bastam em si mesmas e trazem dentro de si sua própria bad. Sinto informar, mas ir a uma balada no alto de uma montanha, comer sushi erótico ou visitar uma cidade histórica ou um museu dos quais você sabe pouco ou nada não te trará felicidade.
Fiz esse disclaimer para meus alunos inúmeras vezes. E era geralmente aí que eu os perdia. A tese de que seu combo de divertimentos gourmetizados talvez não lhes trouxesse felicidade se mostrava tão insuportável que sua atenção se dispersava instantaneamente. A ideia de que a felicidade não deve ser buscada de maneira direta, mas que deve ser esperada como um fenômeno colateral do cumprimento daquilo que reconhecermos ser nossa vocação e nossos deveres lhes soava excêntrica. Idolatravam a tal ponto a intensidade que nunca acharam estranho que, na minha “leitura de mentes”, nunca realizei qualquer previsão para além de seus 50 anos. É que em seu imaginário, a “velhice” é a fase do declínio da intensidade e, portanto, a fase da não vida. A velhice, hoje, só tem algum valor na medida em que mimetize a juventude, em que não deixe a intensidade cair. Mas isso já é um outro assunto.

