Outsider

Sociedade dos pinguins doentes


O carro abre-alas do show de horrores que promete ser o ano de 2026 não poderia ter sido “melhor”.  Estou convencido de que, ao longo do mês de janeiro, quase todos vocês toparam com o meme do pinguim niilista. Trata-se de um trecho de um documentário de 2007 (Encounters at the End of the World) onde se vê um pinguim se afastando dos demais, caminhando solitário em direção a montanhas longínquas. A cena, forte em si mesma, foi cooptada pela boçalidade da rede e editada com uma versão de órgão da música L’Amour Toujours (trilha sonora das baladas de juventude de quem hoje tem por volta de 40 anos e que, portanto, está entrando na crise da meia-idade). O editor manteve a narração original, em que uma voz rouca (do tipo “ancião da tribo”), depois de indicar a conduta excêntrica da ave, se pergunta: “but why?”. A deixa estava dada para que o pinguim se tornasse o símbolo do desprendimento, da coragem, da autonomia, do “pensar com a própria cabeça”: para que se tornasse o símbolo da liberdade.

Mas será que sempre compreendemos a liberdade do jeito que a compreendemos hoje? É óbvio que não. Para começar, o próprio conceito de liberdade (como faculdade humana de escolha autônoma) demorou muito para surgir. Platão, por exemplo, nunca tratou detidamente desse tema. No entanto, enquanto adepto da teoria da reencarnação, parece ter reservado certo grau de liberdade para as almas desencarnadas escolherem sua próxima vida, por ocasião de seu retorno ao mundo dos sentidos (leia-se o mito de Er no livro X de A República). Aristóteles, por sua vez, na Ética a Nicômaco, reconhece que o homem pode agir voluntariamente, colocando-se como causa de suas próprias ações – ou, o que é o mesmo, dando início a novas séries causais.

Com o cristianismo, a capacidade de agir voluntariamente se transformaria no famoso livre-arbítrio, termo utilizado pela primeira vez por Tertuliano no século II e eternizado por Santo Agostinho numa obra homônima e em seus Escritos sobre a graça. Em linhas gerais, na tradição cristã o livre-arbítrio é entendido como uma potência da alma que, por ser imagem e semelhança de Deus, é livre para escolher. Apesar de habitarmos no mundo da matéria, nosso livre-arbítrio nos faz cidadãos do mundo espiritual, do mundo da moral. Podemos ser bons ou maus exatamente porque podemos escolher bem ou mal – e nisso somos únicos (além dos anjos, é claro).

 O homem moderno foi o herdeiro direto do conceito de livre-arbítrio cristão. Contudo, ele não pode suportar por muito mais tempo a ideia de uma liberdade limitada pelas regras divinas. Moveu céus e terra para se livrar da divindade medieval, o que (consciente ou inconscientemente) fez em três etapas: se livrou da Igreja no século XVI, de Jesus nos séculos XVII e XVIII – e, finalmente, se livrou de Deus no século XIX.

Atolados no seio da mera natureza, os modernos não encontraram, todavia, a liberdade que tanto queriam – o que, aliás, era de se esperar. A bem da verdade, não demoramos para notar que o jogo de Deus, ainda que punisse alguns movimentos, não era tão restritivo quanto o tabuleiro da matéria que, no limite, não permite qualquer escolha. Se o homem é só um amontoado de partículas ele, no fundo, é um homem-máquina (como queria La Mettrie), gozando de tanta liberdade quanto uma batedeira ou um liquidificador.

Desesperado, não aguentando permanecer no mar do determinismo irrestrito, o ocidental começou a afirmar sua liberdade desesperadamente, mesmo na ausência de qualquer razão teórica para tal. Com Kant, por exemplo, a liberdade vira um postulado da razão prática – ou seja, algo em que, apesar de tudo, temos que acreditar para que a vida humana seja possível. Pouco depois, o existencialismo viria a sacramentar essa defesa gratuita da liberdade, que daí em diante viraria um wishful thinking: “vamos dizer que somos livres porque… seria bem bacana se o fôssemos”.

Surge assim a noção de liberdade contemporânea. Uma liberdade afirmada sem bases metafísicas e, em princípio, defendida à revelia de todas as evidências científicas que temos (ou julgamos ter) de sua inexistência.  Uma tal liberdade, sustentada irracional e desesperadamente, não reconhece – nem poderia reconhecer – limites. Se a liberdade é fruto de nossa fantasia, ela terá somente os limites que esta quiser lhe impor. Que não nos venham com quaisquer limitações! Seremos o que acreditamos que somos, independentemente de quantas razões haja em contrário.

Agora se entende por que o pinguim niilista virou nosso herói. Pouco nos importa que ele tenha se afastado de seu grupo por conta de um problema cerebral que colocou a perder seu “GPS” interno. Pouco nos importa que talvez tenha abandonado algum filhote ao frio e à fome. Pouco nos importa que seu comportamento extravagante o tenha levado à morte – informação estrategicamente omitida pelo meme. O que importa é que, apesar de tudo, ele fez o que lhe deu em sua cabeça: uma cabeça tão doente quanto a nossa.

Veja mais publicações com Ricardo Mantovani

Sobre o autor

Ricardo Mantovani

Pós-doutorando em Filosofia pelo LABÔ/PUC-SP, licenciado, bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Especialista em Filosofia da Religião e Filosofia Política, coordenador e professor do curso de pós-graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI, coordenador do Núcleo de Apologética e Ateísmo do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.