
Tenho o prazer de publicar, mensalmente, a coluna OUTSIDER, cuja existência se deve ao encorajamento de Andréa Kogan e Luiz Felipe Pondé. Por vezes oferecerei ao leitor textos longos e informativos, por vezes textos curtos e provocativos, além dos inúmeros tons de cinza que há entre esses extremos. Que não se prendam à forma. A única constância aqui será a sinceridade do autor: sinceridade que só se alcança quando se é um outsider.
Quer ver um filósofo errar? Peça a ele para “julgar a história” ou para “prever o futuro”. Quão toscas nos parecem hoje as previsões de um Condorcet, de um Kant, de um Hegel, de um Marx ou mesmo de um Fukuyama? Espero que nenhum de meus leitores acredite na visão desses autores sobre o destino da humanidade. Eles estão patentemente errados, de modo que continuar defendendo suas teses depende de altas doses de fanatismo. Entretanto, mesmo estando consciente de que intelectuais tão notáveis se equivocaram a respeito do assunto, não vou me furtar a expor meu achismo sobre nossa história. Já há algum tempo minha vontade de acertar superou meu medo de errar. E que meu realismo – que, para muitos, é pessimismo – me ajude!
Gregory Clark, em sua história da economia mundial (A Farewell to Alms: A Brief Economic History of the World, de 2007) mostra que desde a antiga Babilônia até o início do século XIX a renda per capita sempre manteve mais ou menos a mesma média em todos os lugares, fixando-se numa linha ligeiramente superior à da mera subsistência. Essa situação, como se sabe, viria a mudar drasticamente a partir de 1800. A Revolução Industrial foi responsável por um aumento drástico da riqueza, de sorte que, daí em diante, mesmo os menos favorecidos passaram a gozar, progressivamente, de mais recursos. Prova inequívoca disso é o boom populacional que data da mesma época.
De lá para cá, a riqueza só aumentou – movimento que poderia continuar por muito tempo caso permitíssemos. Então, o que deveria nos preocupar? Primeiramente, as guerras. O arqueólogo Lawrence Keeley, no monumental A guerra antes da civilização (de 1996), provou que, quando se olha para a história, se observa uma diminuição no número de pessoas mortas em guerras. Percentualmente, no que diz respeito a conflitos bélicos e a suas consequências, morreram menos pessoas na Alemanha e no Japão do século XX do que morrem na maioria das tribos indígenas em atrito com seus vizinhos também indígenas.
Contudo, creio que a multiplicação das armas atômicas tende a mudar esse cenário. Pessoalmente, não tenho dúvidas de que, mais cedo ou mais tarde, o mundo assistirá a uma guerra nuclear. A tese de que, num belo dia, EUA, Rússia, China e outras potências vão simplesmente combinar de desativar para sempre suas ogivas é a ideia mais simplória que já ouvi. O silogismo é simples: o homem é irracional e violento; ele tem armas; logo, ele vai usá-las. Tecnologia inventada é tecnologia usada: e ponto final. Talvez isso aconteça bem antes do que gostaríamos, por ocasião da invasão de Taiwan pela China nas próximas décadas (para não falarmos das guerras já em curso ao redor do planeta). Levando-se em conta quem os humanos são e quem, certamente, continuarão sendo, as bombas atômicas que, até hoje, protelaram a 3ª guerra mundial, não continuarão fazendo isso indefinidamente.
No entanto, as guerras em escalas apocalípticas não são o único efeito nocivo dos Estados modernos. Digamos de uma vez por todas: o Estado é um parasita da iniciativa privada. Desde seu surgimento, o Estado só cresce e só pensa em crescer justamente por que seu hospedeiro – o fruto material do esforço e da engenhosidade individuais – cresce. Apesar disso, ouso dizer que, até a segunda metade do século XX, a atividade dessa sanguessuga gorda ainda não tinha condenado por completo o corpo que a alimenta, sendo que sua atividade burocrático-organizacional chegou mesmo a se mostrar útil sob certos aspectos.
Esse já não é mais o caso. Hoje, o parasita Estado avança a passos largos em direção ao totalitarismo. A sociedade piramidal de que tanto se valeu não lhe interessa mais (no fundo, nunca lhe interessou). Economicamente, se esforça por construir uma sociedade horizontalizada, na qual todos dependam exclusivamente dele – tarefa que leva a cabo por meio de impostos progressivos. Aliás, esse movimento quase não encontra opositores, já que de um lado o povo depende cada vez mais dos “benefícios estatais” e, de outro, os intelectuais veem no inchaço da máquina uma oportunidade crescente de “passar em algum concurso” – ou, quem sabe, chegar aos próprios postos de mando.
Do ponto de vista ético-jurídico, os Estados avançam no vácuo deixado, principalmente, pela religião. O raciocínio é simples. Numa sociedade verdadeiramente religiosa, o certo e o errado não precisam estar nas leis escritas para que tenham algum apelo. Já numa sociedade laicizada, sem qualquer cosmovisão unificada, o certo e o errado só têm peso (ou mesmo existência) na medida em que viram lei – na medida em que são decretados pelo Estado. Eis, pois, a máquina estatal duplamente entronizada, transformando-se, a uma só vez, em definidora da moral e em juíza de todas as desavenças.
De resto, a tecnologia torna tais forças estatizantes cada vez mais eficazes. Se há algumas décadas o governo não tinha meios para conhecer os hábitos cotidianos de um indivíduo em seus mínimos detalhes, atualmente tudo o que fazemos gera rastros: pagamos com cartões de crédito, andamos com celulares rastreáveis, expomos nossas opiniões constantemente em redes sociais etc. Nossa vida inteira está à disposição: basta que se queira “cruzar os dados” (vide Receita Federal). É obvio que tamanha supervisão acabará por desencorajar os talentos individuais, o que certamente acarretará o empobrecimento da sociedade como um todo. O parasita Estado, contudo, parece estar disposto a viver de um hospedeiro bastante debilitado desde que seu “direito” de parasitismo esteja assegurado. George Orwell é o profeta insuperável de nossa era.
Por fim, creio que a inteligência artificial também terá um efeito devastador sobre a civilização – e isso a curtíssimo prazo. O uso da inteligência artificial para tudo está se tornando tão universalizado que tenho certeza de que daqui a, digamos, vinte anos, habilidades como ter insights, saber estabelecer relações entre duas coisas quaisquer, organizar os tópicos de um discurso (escrito ou falado) ou mesmo conhecer as regras da gramática serão consideradas algo excêntrico: do mesmo modo que consideraríamos excêntrico um indivíduo que só aceitasse dirigir um automóvel que ele próprio tivesse construído.
A maioria das tecnologias produzidas visou nos poupar do trabalho físico. Resultado? O homem médio de hoje é mais fraco que o homem médio de qualquer época passada. Agora temos uma tecnologia que visa nos poupar do trabalho intelectual. Resultado? O advento do homem mais burro de todos os tempos. E ele já está entre nós. Inclusive nas universidades. Aqui meu raciocínio pode ser estruturado sob a forma de uma regra de três: tecnologia mecânica está para enfraquecimento muscular assim como inteligência artificial está para enfraquecimento cerebral.
E vejam que com relação à IA estou me focando apenas no efeito deletério que ela tem sobre nossas mentes, não falando da possibilidade razoável que há de uma inteligência artificial destruir aquilo que chamamos de mundo ao modo das ficções científicas. Sobre isso, confiram os trabalhos e declarações preocupadas de Dario Amodei, CEO da Anthropic que prevê o surgimento de uma super IA nos próximos três anos.
Disso tudo, podemos chegar a duas conclusões. Por um lado, me parece que vivemos no melhor momento da história: nas últimas décadas gozamos de grande paz, de inigualável abundância material e de ferramentas tecnológicas que permitiram as sociedades e os indivíduos realizarem coisas verdadeiramente incríveis. Por outro lado, me parece que caminhamos rapidamente para o pior momento da história. As bombas estão prestes a explodir, o Estado está prestes a realizar sua vocação totalitária e a IA está prestes a encruar a inteligência humana. Alcançamos o ponto mais alto da montanha-russa civilizacional. O que nos espera agora é a queda vertiginosa.

