Behavior

Um gótico no túmulo do samba

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor.
Nelson Cavaquinho, “A flor e o espinho”

Cada ano que passa só aumenta a sensação de que eu nasci num lugar que não me pertence. Cada ano que passa chega o Carnaval e com ele quase tudo o que incomoda alguém que se descobriu identificado com o tempo nublado e frio das ruas mais escuras cujos muros são cinza e o chão é de pedra.

Um amigo me lembra do que já sabia, mas que em verdade não configurava, que São Paulo já defendeu o emblema maior que era o de ser conhecida como o túmulo do samba. Essa frase atribuída ao poeta Vinícius de Moraes valida as intenções por detrás da ressignificação. Não sabia na época, mas sei agora que se tratava de um elogio. E para atestar melhor ainda esse juízo, recuperemos a garoa que caía na cidade durante o ano todo. Isso tudo é uma lenda e sinal dos tempos passados. Hoje, nos deparamos com uma imensa densidade de pessoas por metro quadrado que querem ser felizes e que topam tudo para chegar lá.

Alguém aqui há de lembrar que escolhia-se permanecer em São Paulo nos feriados de Carnaval, pois a cidade se esvaziava. Era o melhor momento para ir ao cinema, restaurantes ou para ficar em casa fazendo nada ou lendo um bom livro de terror. Época saudosa em que se permanecia a salvo da cultura do que eu chamo de Gestapo da Alegria: uma rede de observadores, delatores e agentes que basicamente caçavam quem quer que fosse notado como alienado da festa.

Hoje, isso é muito mais complicado. Não se resolve somente cortando as ligações com a mídia, jornais ou coisa do tipo. Além de nos invadir por tudo o que se possa comunicar, o Carnaval nos chega através do impedimento de se ir e vir, o direito básico para se explicar o que é liberdade para uma criança de 5 anos de idade. É por conta disso que me pego procurando, encontrando e baixando aplicativos que me digam onde estão os bloquinhos. Compromissos e responsabilidades são tornados inviáveis por conta dessa tribulação. O futuro nos dirá sobre um novo diagnóstico futuro de uma síndrome em relação ao medo criado pela existência dos bloquinhos.

Vejo nos jornais que a Prefeitura é acusada pela irresponsabilidade que teve em permitir que um cruzamento importante da capital fosse tomado por dois desses bloquinhos – o diminutivo afetivo é puro sinal de duplipensar, Orwell reconheceria isso. E como estamos em um ano de grandes eleições, até o nome de um picolé acaba sendo ideologizado e enviesado. Entende-se então que a prefeitura não garantiu as condições de segurança para os foliões que foram brincar no Carnaval de rua (sinto-me um verdadeiro idiota ao usar essas metáforas que não passam nada da tragédia que estão abordando e comunicando).

O que as pessoas que topam uma proposta dessa têm na cabeça? Vejamos: ser feliz em multidão, escolher permanecer num lugar em que não há cobertura de sol ou chuva, que não se tem para onde ir se algo acontecer, que não há proteção alguma contra vários tipos de assédio, tudo isso, enfim, não é voluntariamente desejar se dar mal?

Eu sequer estou entrando no aspecto do ser feliz somado ao que possa alterar o nosso estado de consciência e tampouco estou pensando na catarse. Somente estou atentando para o fato de que se está procurando por alguma coisa que dê muito errado. Problema: o índice de roubos e furtos sobe até as estrelas e a culpa é de quem deveria promover a segurança? Solução: não vá para um lugar que não está preparado para receber tantas pessoas e que nunca irá prover o impedimento dos riscos. Você escolheu ser feliz numa roubada dessas, arque então com as consequências, ora essa.

Querem mais sobre ressignificação? Não, você não irá brincar e se divertir no Carnaval. Se relaxar e descontrair, tirar a pressão e reabastecer as suas baterias. Você vai ser pisoteado e espremido, vai fazer xixi na rua, tomar bebida quente e batizada, ter o seu celular furtado ou sequer poderá usá-lo. Gente chata e bêbada – talvez você mesmo – vai grudar no seu pé e vai acreditar que tem direitos – entitled, para sermos bilíngues aqui.

E tudo isso para supostamente deixar de escanteio e exorcizar essa injustamente mal afamada tristeza e todos os seus sinônimos, que de tão sofisticados que são, fazem com que esse sentimento sublime se manifeste de muitas maneiras. Falamos aqui de melancolia, da angústia ou da crise existencial mais prosaica. Tudo aquilo que nos humaniza, posto que sinaliza o fracasso, a decadência ou o fim, o destino de todos nós.

De alegria, esse mundo está cheio. No Carnaval eu quero é me refestelar na tristeza do melhor quilate, que foi aquela produzida nos melhores anos do romantismo raiz: vou tomar um porre de Flores do Mal e sonhar que frequento a sociabilidade de Mary e Percy Shelley.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.