
Na fala de pessoas cuja etiqueta profissional determina a manifestação do apoio inercial à esquerda, eu escuto que o Brasil teve avanços políticos (sic) somente quando houve manifestações populares de monta. Nessa direção, os marcos biográficos da nossa história, aqueles que repercutiram em rompimento, tais como a independência ou a república, seguem louvando a presença célere do povo.
Em esquerdês, o que se pretende apontar indiretamente é que as contradições foram evidenciadas através daquilo que revelava a luta de classes. E o passo seguinte é procurar com lente de aumento todos aqueles instantes em que algum tipo de manifestação aconteceu com o objetivo inconfesso de atestar que as rupturas foram conquistadas. Cada palavra nesses discursos conta e elas são escolhidas de modo a estabelecer uma moral da história como se fábulas fossem. Temos então um bom exemplo do storytelling político que tem vida longa nas universidades e redações jornalísticas e publicitárias.
A correia de transmissão funciona como como parafuso sem fim e estende essa compreensão para outros meios de divulgação que não somente os militantes. E, de tal forma, torna-se de bom tom abordar a história do Brasil tendo em mente esses dispositivos do mesmo modo em que se reconhece os talheres específicos para serem usados em um jantar. No entanto, se assim fosse, pergunto-me se não conseguiríamos atestar o produto dessa cultura de luta e confronto em nosso cotidiano. E digo isso por entender que alguma coerência haveria de existir entre a cultura forjada em um passado de enfrentamento das contradições e o que vivemos no dia-a-dia.
Confesso que somente posso identificar um tipo de mal ajambrada desobediência civil que tem referência nas atitudes das nossas elites políticas. E, nesse caso, nada há de proximidade com o que uma vez pensou Henry Thoreau, uma vez que as manifestações de sonegação dos impostos são realizadas por essa mesma elite em comunhão com os provedores privados da riqueza financeira. Chame o ladrão foi a saída musicada por Chico Buarque de Holanda quando da época da ditadura em que era natural que se temesse a presença de um militar. Não estamos tão longe dessa metáfora, não fosse o fato de que temos dificuldade de distinguir o que é legal e o que não é.
O Brasil profundo há muito já naturalizou o “faça você mesmo” em relação às atribuições do Estado. Milícias e gatos espalhados pelo país já criaram um universo paralelo, o que, para muitos é uma realidade que nem mais é percebida, uma vez que deixou de produzir contraste. Não creio que existam leitores tão atentos e entendidos o suficiente para acompanhar os acontecimentos que repercutem nos três poderes da nação, mas se o fizessem, bem notariam que também ali não há distinção sobre o que é atribuição do Estado e o que não é. Uma prova disso é que o relativismo é tão avassalador que sequer se sabe o que é legal e o que deixou de ser posto nas discussões infinitas e que passam pela ambientação da justiça, um detalhe, entre muitos, escolhido ao quase acaso, tem o dom de fazer descarrilar todo o percurso de uma narrativa que até então parecia sólida. Por aqui, a lei da gravidade poderia ser matéria de vista por parte do STF. Alguém duvida disso?
Volto ao início e retomo se não é uma falácia a crença na participação popular na direção das chamadas conquistas. E penso que o Estado no Brasil e o sistema de governo que lhe dá suporte nada mais é do que uma ação entre amigos, o que, para Raymundo Faoro, era chamado de patrimonialismo.
E através das grandes alterações que enfrentamos e que ganharam presença na criação de novos nomes, tais como império ou república, notamos a presença incólume de uma massa que se entende e que habita o alto poder há muito tempo. Uma diferença a ser notada é a do aparecimento do crime organizado, o que não deixa de ser fruto de um enfrentamento e de uma contradição que chegou a uma síntese. Enfim, observou-se que o ilícito não é privilégio de um só grupo alicerçado pelo arremedo de legalidade que é respaldado pelas leis.
O problema maior é se sentir alijado de quaisquer dessas orientações e de não ter a mínima ideia do que deve ser feito para se defender de um e de outro agente do crime. É possível supor que seríamos diferentes se tivéssemos uma história que contasse com rompimentos beligerantes com a metrópole, na chegada à independência ou à República?
Pode ser que sim e, nessa toada, os ilícitos assimilados no cotidiano iriam ser flagrados pelos cidadãos que não iriam aceitar a manifestação de um privilégio onde ele não devia existir. Mas não é o que se percebe. Nas ruas de São Paulo, vejo hoje que os carros passaram a andar como as motos e sobem nas faixas o quanto podem. Já as motos, em uma prática que deve ter se iniciado na pandemia, andam nas calçadas e não mais se orientam pelos semáforos. Coisa parecida fazem os carros grandes e caros que também assimilaram o fato de que não se é mais necessário dar sinal para se virar para um lado ou outro. Pequenas corrupções que refletem as maiores e que fazem do nosso país um perigoso tipo de acampamento, como já dizia Paulo Francis.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

