
Ao final de A estranha morte da Europa: imigração, identidade, Islã (Campinas, SP: Vide Editorial, 2023), Douglas Murray apresentou uma hipótese que poderia explicar os aspectos dissonantes do comportamento do Ocidente. Falamos aqui da autonegação dos valores que foram dispostos e reforçados nos Iluminismos do século XVIII e que se caracterizaram pelo acolhimento do humanismo greco-latino, da incorporação do ceticismo aplicado e da valorização da liberdade.
Douglas se perguntava sobre os motivos que fariam nos aproximar de práticas religiosas tradicionais e imunes a qualquer tipo de crítica secular assim como o islamismo se caracteriza. E, como resposta, o autor se valia dos indícios quanto à necessidade de se ter alguma coisa incontestável para se dar crédito, algo que não viesse a ser corroído pelo relativismo, herdeiro do pensamento gestado a partir do percurso descrito anteriormente.
Muitas coisas passam pelo nossa cabeça e uma delas diz respeito ao fato de conseguirmos ou não prosseguir em vida concedendo pouca distinção entre nós e as pedras, ainda que superestimemos o crédito que damos ao pensamento em comparação com a pedra que nada pode manifestar. Mas nem tudo são vantagens, e a pedra não teve necessidade de contrapor o niilismo à fé somente para se sentir satisfeita com sua própria imagem de confirmação de superioridade e suficiência. E eu me refiro aqui à consciência metafísica de que nada faça sentido, uma vez que, na prática, a maioria de nós sequer dependeu de crenças maiores, uma vez que a imanência é condição para que o pragmatismo mais eficiente lide adequadamente com o que de fato parece contar: saber onde temos água, alimento e segurança.
Nietzsche ou Cioran são exemplos de filósofos que subiram a régua em relação à credibilidade dos deuses e das práticas religiosas, mas não penso neles exatamente como criadores do niilismo, mas como seres que foram atentos ao que notavam como pertencente ao cotidiano mais comezinho, naquele espaço em que os deuses costumam ser discretos. Penso nisso e não me confundo em relação ao que já se vivia sobre a morte de Deus, antes que essa frase fosse escrita pelo filósofo alemão. Será que a consciência dessa afirmação é uma carga que se consiga carregar?
Perguntemos com Murray: O recrudescimento do islamismo no Ocidente contemporâneo seria um sinal de que buscamos algo para se colocar no lugar de tudo o que nos habituamos em detratar e descrer? Bem, essa não seria a primeira vez… Porém, em se tratando do embate com a Jihad, já antepusemos maiores forças que eram respaldadas por um enfrentamento igualmente religioso. As Cruzadas, a batalha de Poitiers e a expulsão dos otomanos das proximidades de Viena perfazem exemplos de que a fé foi combatida por outro tipo de fé e que matar por Deus manifesta-se em uma força incomum.
Vejo aqui que esse tema abre muitas possibilidades de reflexão, inclusive por facultar comparações com outros momentos beligerantes, contudo, o que me interessa aqui é apontar que Murray vê esse movimento em direção ao islamismo como sendo promovido pela ausência de relativismo, até mesmo porque não se produziu nenhuma perspectiva de pensá-lo pra além da crença: o islamismo não se comporta como um objeto de reflexão, mas sim é pura substância da fé materializada. Em comparação com as outras religiões que se conformam às dúvidas que incidem sobre elas, o islamismo vence com distância.
Do humor intelectualizado e passando pela reflexão mais sóbria e legitimada pelos doutos, somente o islamismo permanece intocado. Não que as demais crenças não lastimem sua ridicularização, mas a reação frente a isso já há muito está longe das punições na fogueira ou da tortura.
Isso posto e temos um horizonte de especulação que passa pelo comportamento ocidental frente aos seus próprios valores e do espetacular desprestígio em relação a eles. Contudo, pode ser apenas que se blefe passando a ideia de que se consiga permanecer em pé fingindo segurança, de que se esteja bem mesmo que nada tenha permanecido no lugar. Pode ser então que o sagrado mais exatamente se mantenha por ser impronunciável e intocável e que a sua força venha dessa natureza sobrenatural. O que se sustenta imune frente aos relativismos sob o risco de perseguição e morte exerce um fascínio sobre quem já se acostumou a nada acreditar.
Retome-se aqui que o pensamento secular tem poucos séculos de vida quando colocado ao lado da fé. Mas não deixa de ser curioso dar-se conta da impostura presente nessa disposição que já foi reconhecida como um estado de maioridade que a tudo lança luz e que consegue transparecer a sabedoria que tanto regozijo provoca entre os seus adeptos.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

