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Alienados e conscientes: todos no mesmo barco da política

Vivemos diuturnamente o dilema de se envolver ou não na política do nosso país. Pessoas razoavelmente informadas por vezes comparam o nosso povo com o de outras nações como Argentina ou França. Nessa atitude, lastimam que o Brasil conte com tão poucos protestos políticos. Mas é claro que esses comentários traem a presença de vieses e se percebe que protesto com P maiúsculo somente se for contra um governo alinhado à direita, extrema ou não. E se as manifestações são feitas contra um governo de esquerda, explica-se que se trata de estímulos provocados por agenciamento de disparos por bots ideologicamente predispostos. Simples assim, mesmo que tacitamente acordado entre quem fala e quem esculta.

Em se tratando de manifestações de esquerda, o brado é de que se trata de luta por melhores condições, e as palavras derivadas de social, política, libertação ou conquista são usadas ao largo. Já o contrário vem sendo assemelhado ao que de pior existe. Essas informações sobre política são trocadas descriteriosa e inadvertidamente como se de fato fossem aplicáveis a esse campo prático ou de pesquisa. E aí é que se nota que a política é tomada pela paixão como qualquer outra atividade irracional.

Acredito que comparar Brasil com Argentina quase que dê num empate político. Nos assemelhamos na corrupção nos vários escalões sociais e em relação aos representantes políticos que persistem no afundamento quilométrico das crises permanentes. Já a França desperta um sentimento diferente uma vez que as muitas revoluções ali ocorridas devem ressoar como mensagem de riscos para quem quer que se abolete no poder.

Fiz essa introdução como uma ressalva já que não conseguimos dispor de conexões concretas que justifiquem que um comportamento que reforce a politização venha a se configurar em maior maturidade no quesito da preocupação com o país. Fazer política, lutar e ser consciente politicamente são palavras de ordem que se encaixam bem em filmes emotivos da década de 1960, mas hoje produzem bem pouco ou quase nada.

É claro que algumas situações conseguem capitalizar a catarse mais do que outras, sendo que esses contextos podem ser bastante específicos e quase acessados somente pelo exame de microcasos. Dentre os fatores que podem causar influência, devemos nos deparar com a ausência de carisma por parte do governante em questão, se houve divulgação massiva de corrupção, se há repercussão econômica no aumento de preços e no desemprego e finalmente, se houver uma oferta de histórias íntimas sendo compartilhadas. Veja então que o que se chama de politização pode se cruzar com intimidades reveladas, traições ou outras coisas mais que lhes são aparentadas.

Não se tem certeza do que se faz para conduzir muita gente para as ruas, pois quando se sabe que o país está sob a atenção mundial, no caso de estar sediando um evento esportivo de grande monta, as manifestações podem espocar. E daí a crer que se seja politizado é um grande e temeroso passo delirante. Mas como apontamos no início, tudo depende do espectro político que lidera e impulsiona a agitação.

Nuance interessante a ser explorada é aquela que vai estar presente e ser rememorada como significativa para a cultura política da pessoa ao longo de sua vida. A maioria dos participantes das manifestações, contra tudo e todos, vai levar isso pra vida como um traço a ser exaltado, a não ser que se frustre como a ideologia que acreditava e que venha a se sentir um trouxa no futuro. Do contrário, ela irá se apegar à sua orientação política como com a pelúcia que era o seu companheiro de naninha. E tudo o mais vai se montando em um todo coerente. Companheiros, amigos, filmes ou livros, tudo isso vai orbitar em torno da legitimação dessa sina, ainda que manifestada como qualidade positiva. E nessa postura, há muito mais de esquerda do que de direita, cabendo a essa orientação o que se ventila como progressista, avançado, crítico e tudo o mais.

Alguns poucos, no entanto, irão envergar a política como ela se faz profissionalmente e vão se oferecer aos cargos públicos com o objetivo de estar por dentro daquilo que era abstrato nas ruas. Nesse momento, seria correto acreditar que essas pessoas serão vistas e tomadas como potencialmente propensas à corrupção e às ações mal intencionadas.

Eu não estou só nessa suposição. Jason Brennan é um dos autores que concordam com o fato de que quanto mais por dentro da política se está, mais próximo da corrupção se encontra. É por tudo isso que as palavras de ordem na exaltação da política nada mais são do que uma cortina de fumaça pronta para esconder o que verdadeiramente acontece.

Lembro-me de um amigo que me contou que a sua filha estava participando das manifestações políticas em uma dada época e que tinha sido ferida por estilhaços de bombas de efeito moral. Ele demonstrava ódio contra o governo de plantão que havia sido responsabilizado por essas ações e legitimava o comportamento de sua filha por acreditar que isso seria positivo em sua formação quando adulta, como se ela, a partir de então, viesse a permanecer em constante alerta contra governos totalitários. Muito provavelmente ele encontrou outro álibi para conter a sua preocupação de pai quando os mesmos governantes trocaram de lado e passaram a engrossar o time político que o agradava e diante do qual votava de um modo mecânico. Chamar isso tudo de consciência política é forçar muito a barra.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.