
Simbolizar a miséria raquítica do baiano e interiorano brasileiro, para efeito de mero consumo visual, enquanto muito agradavelmente acaricia as fantasias de amor ilimitado que fazem o narcisismo da classe média confortável no Brasil, um conforto porque pagam cerca de 100 milhões de brasileiros no nosso “Alagados” nacional. Paulo Francis. “Caetano, pajé doce e maltrapilho “. Folha de São Paulo, 25/07/1983.
Poucos entre nós tiveram a acuidade de bem descrever as faces de se descobrir brasileiro quanto Paulo Francis (1930-1997). Francis conhecido entre nós como jornalista, o que joga sombra na potência de seu pensamento. Dizer que se destaca no cenário em que figuram outros intérpretes do Brasil é muito pouco. O que de fato o distingue, o que o tornou luminar?
Amadurecendo cedo, e entre os anos 50 a 70, Francis teve oportunidade de cruzar com alterações de monta na política que se fazia em nosso país. Teve idade para ver a saída de Getúlio Vargas do poder, os governos que se seguiram até a ditadura e, finalmente, a abertura política e a introdução da Nova República. Seu primeiro contato com a superestrutura deu-se a partir do trotskismo sendo Isaac Deutscher uma referência costumeiramente citada. É suposto que tenha vivenciado de modo privilegiado o uso pragmático do lugar do artista como se um porta voz do demiurgo fosse, o que em terras brasileiras bem se ajusta ao mau-caratismo atávico.
Dentre os seus primeiros exercícios de reflexão, encontram-se as críticas que fez sobre teatro. Iniciava ali publicamente, uma dedicação para com os produtos de alta cultura e que passavam pela ópera, pelo teatro e pelo cinema. Sobre cada uma dessas artes, Paulo Francis dedicava-se com a devoção que poderia ser percebida em cada um dos parágrafos que realizava com suas percepções sobre o desempenho dos atores, a direção ou fotografia, tudo isso sem impostura, mas sim, contra ela: amava a arte com pureza.
Vivendo em Nova Iorque, entre os anos de 1971 e 1997, Paulo Francis veio a constituir um olhar específico sobre o Brasil. É o que depreendemos do tipo de relação que ele forjou sobre os aspectos oportunamente naturalizados por quem dependia do esquema da cultura brasileira. O deslumbre percebido aqui em cada apreciação para o que vinha de fora pontificava no jequismo, expressão cunhada por Francis e que tanto se ajusta aos arremedos brasileiros quando estimulados pelo que chegava do exterior.
Conhecia por dentro a dialética conjurada no Brasil e possuía intimidade com a contracultura que ganhava projeção ao redor das mesas das famílias aboletadas no poder desde a colônia. Tinha o faro talhado para ver adiante, já na idade mais avançada, aqueles que muito cedo eram estimulados para o encantamento do público. Abordava intelectuais e artistas por meio do temperamento curtido na extensão da sociabilidade das casas-grandes. É desse embevecimento recíproco que ela fala no artigo sobre a entrevista com Mick Jagger realizada por Caetano Veloso.
Via as reações neófitas daqueles que eram os novos personagens em cena, gente de São Paulo que contava com a legitimação ancorada pela modernidade. Sabia discriminar dentre eles, aqueles que muito pouco se distanciaram dos bancos escolares enviesados pelo cristianismo social, mesmo que se postassem do alto de suas vaidades como ateus, marxistas e revolucionários de botequim.
É dele que retiro a compreensão de que nos enredamos mais e a perder de vista ao mantermos a identificação subjetiva com o nosso país. E na ausência de uma ruptura histórica que tenha sido elaborada, o que temos parece sempre ser uma política de ajustes cronológicos às modas. É nessa direção que a coluna da qual eu coloquei acima um trecho ganha a sua envergadura. Ao mencionar o quanto a mídia se rende ao consagramento dos artistas e o quanto isso deve fazer mal inclusive para eles mesmos. Quem já esteve em apresentações e se sentiu refém dos aplausos bem se aproxima das impressões apontadas por Paulo Francis.
Nossa relação com as vacas sagradas, quando nacionais, evidentemente termina com qualquer tipo de distanciamento crítico de tal forma que Nietzsche, sendo brasileiro, iria se manter fiel a Wagner por todo o sempre e se louvamos o seu distanciamento, somente damos lugar para o antissemitismo confesso por parte do compositor. Pelo contrário, para o filósofo, era o fascínio de se sentir aclamado como um gênio o que ofuscou Wagner.
É a partir de Francis que se ganha corpo a ideia de que apoios políticos no Brasil somente podem ser compreendidos como na base do menos pior e nunca podem ser gravados na pedra. E, se isso acontece, pode se estar certo de que se pretende fazer parte do jogo e se suceder como o gerente da banca. Sobrevive-se com o que se for possível e na cultura de consumo, se joga com o que se tem. Amar o país pode render frutos se isto for feito de um modo acertado. Capitalizar em torno de misérias é sempre uma possibilidade no cardápio dos investimentos e o ditador simpático sempre conta com trunfos e pode ser reeditado infinitamente. Tudo isso tomando como certo que o narcisismo de nossa classe média letrada seja satisfeito: a reciprocidade entre políticos nefastos e grande parte do povo brasileiro subverte os dogmas clássicos que diferenciam as ideologias entre esquerda e direita.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

