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Triste Europa

O Velho Mundo precede em associações que todos de nós temos e que passam por um universo de temas. Em uma rápida observação do apanhado de pouco mais de 150 anos, podemos retomar aqui a presença no cotidiano que já se deu no contato com os diferentes sotaques que muitas vezes se apegavam aos personagens que se deparava na cidade, em especial, nas lojas e mercados localizados nos grandes centros. Os negócios em que os imigrantes se sobressaíram eram aqueles próximos do agito das ruas e a vivacidade podia ser notada através dos bordões pronunciados a partir do que julgavam que poderia ser compreendido por aqueles que falavam português.

“As Europa” ou “das Europa” era uma das primeiras indicações de localização, ao menos através do nome, uma vez que todo mundo que falasse enrolado e que viesse de longe, bem poderia ser agregado à essa expressão. Sabores e aromas distintos compunham o cenário que estimulava quem dele também fazia parte. Nada era então remetido à riqueza ou à hipótese de que, por ter vindo de algum país europeu, tais pessoas deveriam ser referências nas modas ou nos costumes. O motivo que as trouxe para cá era significativo em relação às dificuldades pelas quais passavam nas suas pátrias de origem e a futura associação com o chique é uma história que nos chega através de outros percursos.

De fato, uma origem dessa percepção veio a ocorrer na geração dos filhos daqueles que primeiramente aportaram no Brasil e, especialmente, em relação aos netos. De forma mais clara, os que acessaram às universidades ou que tiveram bons desempenhos nos negócios herdados e presentes na família. O crescimento da economia ocidental capitaneado pelos Estados Unidos do pós-guerra contribuiu para formação de um meio econômico propício para as iniciativas e para o aumento da demanda por profissões de nível superior. Aqui então, uma das pistas para uma ressignificação do que se entendia como Europa.

Durante um tempo, no período glamoroso das empresas aéreas, quando as viagens para o exterior eram marcadoras de comportamento de distinção, quem tivesse viajado para algum país europeu teria motivos para se mostrar ou não, mas de toda forma, seria percebido como chique. Essas interpretações eram devidas aos filmes ou novelas de época que contribuíram para difundir uma imagem de luxo e de gastos no além-mar. Não importando que essas pessoas fossem exatamente como muitos de nós, pertencentes à classe média e com ocupações relativas a essa mesma configuração de cultura. No entanto, ser professor, advogada ou jornalista em Paris tinha mais peso e significância. Uma parte disso ainda ressoa atualmente e, muitas vezes, tem-se que esclarecer que se é duro de grana tanto aqui quanto na Europa e quem vive em São Paulo tem o mesmo custo de vida em uma grande cidade de lá.

Nesse contexto e até ao menos as décadas de 1980 e 1990, passar um tempo na Europa, especialmente quando em uma viagem feita sem guias ou com o suporte de agentes de viagem, era um verdadeiro marco que viria a compor o dress code mais cool daquele que a realizasse. Tempos depois era notável a diferença daqueles que realizaram esses destinos e os que somente se moveram por uns 800 km por aqui mesmo. E, dependendo da qualidade das pessoas envolvidas, rolava bullying e ressentimento. Mas, quem não voou para a Europa nesse período, perdeu a chance de vê-la vazia e de se deixar perder em Paris ou Londres sem receio algum para logo se deparar com uma estação de metrô e fazer o caminho de retorno.

Recuperei esse percurso aqui para mencionar um livro que nos fala de uma outra Europa que é pouco convidativa. A estranha morte da Europa: imigração, identidade, Islã, de Douglas Murray (São Paulo: Vide Editorial, 2025) nos apresenta um continente que chegou muito mal ao século XXI, de tal maneira não soube responder às demandas políticas implicadas nos contextos culturais que irromperam nos últimos 30 anos. Murray construiu uma escrita que engaja o leitor que tem empatia por parte dessa história retomada aqui e investiga algo que ele vê como motivação para o estado em que o Velho Mundo se encontra. Entre pusilanimidade e irresponsabilidade política, a chave se encontra numa espécie de laissez-faire cultural, o que se configura no abandono do povo à sua própria sorte. Para Douglas Murray,

Ao mesmo tempo, a única cultura que não podia ser celebrada era a cultura que permitiu que todas essas outras culturas fossem celebradas. Para se tornarem multiculturais, comarcas descobriram que precisavam se rebaixar, concentrando-se particularmente em seus aspectos negativos. Assim, os Estados que foram tão liberais que permitiram e encorajaram a migração em grande escala foram retratados como países especialmente racistas. E enquanto todas e quaisquer outras culturas do mundo podiam ser celebradas na Europa, celebrar até as coisas boas da Europa dentro da Europa tornou-se suspeito. A era multicultural foi a era da autoabnegação europeia, onde a sociedade anfitriã parecia se afastar de si mesma e esperava não ser reconhecida a não ser como quem organizou a festa. Por essa razão, entre outras, que o célebre filósofo político americano Samuel Huntington escreveu no seu último livro, “o multiculturalismo é, na sua essência, anticivilização europeia. É basicamente uma ideologia antiocidental”. (Murray, Douglas. A estranha morte da Europa: Imigração, identidade, Islã, p. 130).

O assombro de Douglas Murray se fundamenta na transformação da Europa em um continente que abandonou seus hábitos e costumes moldados entre avanços e retrocessos. A comunidade europeia atravessou guerras, movimentos políticos e artísticos e culturais que terminaram por se assentar em uma aceitação do secularismo e do convívio com diferentes culturas, isto é, na condição de anfitriã. Murray se refere então ao mito do multiculturalismo que tanto fez em descaracterizar as nações e que terminou por colocar a Europa inibida e insegura na defesa dos valores que, por um tempo, foram referência para grande parte da humanidade. A sugestão de Murray é que não se pronuncie de modo livre e se evite perder-se em alguma das grandes cidades europeias.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.