
A sensação de que não estamos sozinhos ou tomados pela paranoia pode ser neutralizada. Sou leitor da The Free Press, publicação que tem suprido o pouco de oxigênio nesses tempos em que a imprensa nos enche de tédio. Em que ponto chegamos quando a polarização separa os acontecimentos entre bons e maus de acordo com o que os preguiçosos algoritmos indicam? É na thefp que eu me deparei com o artigo Moral Inversion and the Iran War, (Inversão Moral e a Guerra do Irã) de Zack Dulberg and Adam Louis-Klein que me trouxe uma luz para algo que pressentia. Ambos os autores tomaram como fonte uma pesquisa que haviam realizado no Network Contagion Research Institute – NCRI (Instituto de Pesquisa de Contágio em Rede). Uma ida ao site desse think tank possibilitou o meu contato com o relatório da investigação realizada, Moral Inversion and the Rise of Authoritarian Sympathy (Inversão Moral e a Ascensão da Simpatia pelo Autoritarismo).
Essa exploração foi desenhada tendo como partida a aceitação de que, tendo em vista a urbanidade, polidez ou até mesmo a internalização dos parâmetros humanistas, uma maioria expressiva de pessoas costuma se manifestar como defensoras da democracia, da justiça e igualdade sociais e da paz. Tais aspectos sendo notados inclusive através do contraste explicitado pela crítica que fazem ao mundo quando tomado pela violência, torturas, misoginia ou homofobia.
Porém, de acordo com os autores, todo esse aparato vem a desaparecer quando motivado por condições específicas, pontuais, mas reveladoras de um comportamento viciado. De fato, a violência foi naturalizada nos regimes totalitários concebidos no século XX, de tal forma que fosse no stalinismo ou sob o nazismo, reenquadrou-se “a justiça como tirania e o mal como uma ação virtuosa” (todas as referências entre aspas fazem parte do relatório citado anteriormente). Em outras palavras, houve um afastamento empático do viés humanista assim como do predisposto por alguns séculos de exposição à propagação dos direitos universais inalienáveis da humanidade.
Uma pesquisa oferece apenas resultados que nos fazem pensar quando os dados apresentados nos fazem retomar as experiências passadas como contraponto ao que julgamos como favas contadas no presente. Nesse sentido, o instante em que vivemos é lapidar quando se leva em consideração a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã e seus proxies no Oriente Médio. Temos um evento que estimula a opinião pública, que reúne nações cujos significados simbólicos são demarcados pelo embate ideológico – capitalismo e anticapitalismo; esquerda e direita; riqueza e miséria e o mais significativo, conta com a presença do Estado de Israel e dos juízos pejorativos agregados tais como o sionismo ou “questão judaica”. Enfim, todos as alusões que propiciaram a veiculação do antissemitismo no século passado. Contudo, no presente, esse objeto de estudos tem atributos distintos. Para os autores,
“Indivíduos que afirmam defender os direitos humanos universais reproduzem cada vez mais a lógica dos sistemas repressivos que dizem combater — minimizando os abusos de alguns dos piores regimes do mundo enquanto condenam as sociedades democráticas”.
Para capturar avaliações relativas de estados autoritários e democráticos do Ocidente, foi construído um modelo chamado de Índice de Diferença de Direitos Humanos (IDDH). De acordo com ele, regimes autoritários e democracias foram dispostos como meio de estímulo de respostas, fossem positivas ou negativas, como meio de percepção da identificação com um sistema de governo ou outro. Para se alcançar esses resultados, os respondentes tomavam contato com imagens associadas ao stalinismo, com afirmações de cunho nazista, além de menções que evidenciassem a presença do antissionismo.
Assim, frases como “[ ] foi sempre e somente um parasita no corpo de outros povos… [ ] é um povo sob cujo parasitismo toda a humanidade honesta sofre” foram retiradas de pronunciamentos de Hitler; “a América seria muito melhor se todos os ricos estivessem na base da escada social” sendo uma das citações para a identificação do autoritarismo de esquerda; “os fatos sobre criminalidade e as recentes desordens públicas mostram que precisamos agir com mais rigor contra os agitadores, se quisermos preservar a lei e a ordem”, para se medir o autoritarismo de direita e finalmente, “Israel trata os palestinos como os nazistas tratavam os judeus” para se perceber o grau de antissemitismo. Resta dizer que os participantes indicaram seu grau de concordância em uma escala de 7 pontos (1=Discordo totalmente, 7=Concordo totalmente) para cada item.
Para os meus interesses nessa coluna, importa-me sinalizar que um dos resultados foi a percepção de empatia por atitudes de violência ou extermínio de grupos ligados ao estado judeu, o que qualifica e dá lugar à expressão de que estamos defronte de uma inversão moral, ou seja, “apelando à ideia de direitos humanos universais para sua legitimidade, a ideologia antissionista atual se apresenta como moralmente fundamentada e anti-opressora”.
De acordo com o relatório,
“Antissionismo, antissemitismo genérico, endosso de propaganda soviética e nazista, autoritarismo de esquerda e o IDDH apareceram todos juntos em um conjunto de associações. No extremo superior de cada variável do conjunto, democracias ocidentais como Suíça, EUA e Austrália foram avaliadas como quase indistinguíveis de países autoritários, refletindo uma confusão ou nivelamento dos julgamentos morais. Para Israel — um país democrático que assegura direitos iguais a todos os seus cidadãos —, a inversão moral foi ainda mais pronunciada: foi avaliado abaixo de alguns dos mais opressivos violadores de direitos humanos do mundo”.
Progressista autoritário foi um outro termo que agreguei ao meu repertório, mas ele vale uma outra behavior.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

