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Bem-vindos ao passado

A passagem do século XIX para o XX dispôs de modo escancarado o que viria pela frente nos termos históricos do que convencionou-se chamar por modernidade. Quando nos detemos um pouco que seja nos eventos que se sucederam – dos mais pueris aos mais complexos – antevemos todo um desdobramento de consequências que nos alcançam no contemporâneo. E o tempo passado, que decanta sentimentos e apreensões, abre perspectivas de acesso que são para lá de instigantes. É assim que a literatura de suspense ou terror daquele contexto oferta o contato com os medos que passam pelas ruas tomadas pelas luzes a gás das grandes cidades, pelas multidões que agrupam seres díspares e aparentemente desordenados e flaneurs que teimam em passarem desapercebidos. Para cada um desses temores equiparam-se outros e que passam pelas doenças sob descontrole ou pelo contato com os receios que contrastam com a moral postiça, ainda que aspirada, que se perfez no período a que chamamos de vitoriano.

Expressivas tensões passavam pela descoberta da ansiedade que tanto viria a ser reforçada por uma série de aspectos que foram dispostos às pessoas que até então possuíam uma utensilagem mental afeita às fantasias, aos sonhos e pesadelos. O primitivo presente em cada um e que foi maturado ao longo de milhares de anos se apavorava em meio aos novos ruídos, sensações repercutidas pelo contato com as máquinas e, acima de tudo, com o secularismo que somente se valia dele próprio para ocupar o espaço das crenças que seriam ridicularizadas. Imagens de épocas, sejam fotografias ou testemunhos, oferecem os contornos mais precisos dos traumas ali forjados e que foram inviabilizados pela propagação de que se vivia em uma Belle Époque.

No entanto, de modo semelhante com o que se viu acontecer no romantismo, os escapes para esses temores inconfessados encontraram acolhimento naqueles relatos que dispunham lugares imaginários que pressentiam o destino que lhes seguiria à frente. É assim que nos inícios do século XX, uma literatura distópica ganha corpo e, através dela, os maiores medos se configuraram. H.G Wells, autor admirado por Yevgeny Zamyatin, Aldous Huxley e George Orwell, perfizeram alguns desses nomes que vieram a fundar o gênero das distopias. Trataram de obras que poderiam bem ser vistas como introdutórias às tragédias do século XX e que foram realizadas através da aceitação paradoxal do que vinha a ser a modernidade: não é por acaso que autores como Dostoievski, Chesterton ou Tocqueville ganhariam o rótulo de reacionários pelo simples fato de anunciarem que tudo poderia dar muito errado e terminar de modo trágico.

Grandes historiadores como Nicolau Sevcenko e Elias Saliba aprofundaram esses aspectos ainda que em território nacional e descortinaram os temores camuflados por detrás da modernidade compulsória ocorrida no Brasil nos inícios do século XX. E se Sevcenko se deteve na quebra de harmonia entre o que passou a ser considerado retrógado e o propalado avanço dos tempos modernos, Saliba viu, na capacidade brasileira de fazer humor, uma via de escape frente às mais desterradas novidades que forçavam a sua entrada com tamanho estardalhaço ainda que com parcas justificativas: e não é exatamente isso que é o moderno? Uma proposta de melhoria a partir do zero, sem comprovação alguma de que ela será adequada e salutar?

A persistência desse estranhamento pode ser observada e sentida quando hoje se discute sobre o futuro com a presença da inteligência artificial. O mantra sobre “o que será de nós” retoma as preocupações de mais de cem anos atrás, porém sem o benefício da ingenuidade ou da pureza. E não foi nenhum tipo de densidade maior e reflexiva que veio a nos tornar mais seguros em relação a esses medos atávicos. Mas o fato é que aprendemos a simular confiança até quando manifestamos por aí que somos ateus uma vez que Deus não existe.  Diga-se que o cinismo é um dos disfarces que melhor nos cabem.

Em relação à percepção das transformações presenciadas no final do século XIX e que em muito permanecem contemporâneas, vale apresentar aqui uma referência aos historiador Peter Gay, quando aponta que:

“essas grandes turbulências constituíam uma presença constante nas mentes do século XIX, gerando sonhos plenos de esperança ou verdadeiros pesadelos, o que levava os otimistas a predizer o triunfo da ciência, a liberação feminina ou a renovação da cultura, enquanto os pessimistas eram levados a prever a ruína das religiões, a subversão da vida familiar ou a corrupção da ordem.” (Peter Gay, A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: A educação dos sentidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 45).

Essa retomada de percurso, com especial atenção à virada para o século XX, pode nos conduzir à reflexão cética sobre o que nos acostumamos a tomar como benefícios e que foram alcançados pelas promessas cumpridas da modernidade. E, nessa direção, podemos ajustar a nossa percepção ao que hoje acalentamos como distopia, ainda que na verdade, estejamos falando de utopias malogradas.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.