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Regimes de historicidade

“Só podemos agir em função de um tempo limitado: um dia, uma semana, um mês, um ano, dez anos ou uma vida. Porque se por desgraça relacionamos nossos atos ao Tempo, tempo e atos se evaporam; e é então a aventura no Nada, a gênese do Não.” E. M. Cioran, Silogismos da Amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p. 34.

A questão em si é simples, mas sentimos que estamos defronte de um juízo de sabedoria, muito provavelmente por nos constrangermos de pronunciá-lo em público antes de ouvi-lo. Pode ser que as grandes descobertas sejam todas assim e sempre que refizermos o percurso que nos conduziu a elas temos a tendência de notá-las a partir desse sentimento: por que não fui eu que cheguei primeiro a essa realização?

Vejamos aqui uma expressão criada pelo historiador François Hartog (1946): regimes de historicidade. Nada mais do que levar em consideração que a nossa intuição sobre o passado e o futuro se encontra num presente que é circunscrito pela história. Não há nada do que conhecemos que não venha a possuir historicidade, bastando somente que exista ou tenha existido. Interessa perceber que aspirações e expectativas estão tão vinculadas com o seu tempo quanto invenções que são acolhidas ou não pelo presente que as reconheceu pela primeira vez.

Em sala de aula e me dirigindo aos estudantes que nasceram entre 2004 e 2008, eu lhes proponho que pensem sobre a sensação de ansiedade e sugiro que comparem a nossa sociedade com a de um grupo de nativos que tenha vivido no século XIV. Quão apaziguadas eram essas pessoas em que o futuro não lhes colocava uma interrogação quanto ao seu desfecho? Comparadas conosco e nada possuíam de expectativas frente ao que viria a acontecer, não ao menos se pensarmos no futuro como um ponto final de realização de tarefas classificadas em uma planilha.

Assentados estavam e o passado sequer se estabelecia como um objeto de preocupação que viesse a provocar distanciamento. Pode-se supor que a metafísica que se fazia no entorno desse cotidiano repercutia a crença de que o dia seguinte fosse parecido com o anterior e, na ausência de imagens compartilhadas de si mesmo e dos outros, não se pensava em modificações por conta da ação do tempo. A resposta ao enigma da esfinge é tão recorrente porque inclusive recupera um entendimento que de tão óbvio também evitamos retirá-lo do contexto em que foi primeiramente elaborado: hoje o tomaríamos a partir do conceito de flashback de modo a parecer mais didático e consumível.

Para Hartog, tudo muda a partir da incidência de rupturas de continuidade, sendo que somente são percebidas enquanto tais quando estabelecem um corte em relação ao que até então acontecia. A própria repetição é posta sob escrutínio e é por isso que se dá conta de que o que ocorria era relativo. Diga-se que antes da ocorrência dessa cisão não se experimentava uma sucessão de dias como instaladores de tédio, uma vez que não se supunha um outro contexto que não se conhecia e que por isso nem imaginado poderia ser: para questionar o ar que se respira, é preciso que se tenha a experiência de sua privação.

O passado é reconhecido como o que se teve e o que se perde e o presente passa a ser um índice espacial em que nos aproximamos de um futuro provedor de angústias e ansiedades, quase que sem grandes distinções entre si. Reinhart Koselleck (1923-2006) manifestou esse quadro da historicidade a partir do que chamou de semântica dos tempos históricos, ou seja, uma proposta de encetamento das diferentes apropriações do passado ou do futuro e de suas relações com a única categoria concreta em temos de carne e osso que é o presente dos seres vivos.

Indícios das certezas que concebemos nos asseveram apropriações do futuro como se domadas fossem e nos habituamos a satisfazer com a ansiedade encapsulada na especulação de que se vai ou não chover. O tempo acumulado já havia nos predisposto a acreditar que dia e noite se sucedem e que a lua não desapareceria para todo o sempre: em termos humanos, essa percepção deve ser vista como um grande sucesso para a espécie.

Interessante é o exercício de se igualmente comparar a metafísica que se produziu para se conformar aos tempos modernos em que o passado somente nos aparece por meio de boatos e em que o presente é um espaço fugaz em que se aspira pelo que não temos, que é exatamente o futuro então consumido por uma escatologia sem alma.

É natural e coerente que se perceba o quanto ressignificamos os aparatos que compõem os marcadores de comportamento das duas sociedades aqui dispostas. Filhos, progenitores, vivos, mortos e não nascidos nos forneciam suportes que, à sua maneira, eram suficientes para nos oferecerem segurança frente à busca por um sentido que fosse. Hoje, pelo contrário, somos presas fáceis de qualquer tipo de charlatanismo que usurpou a fonte que antes nos provia de saciedade frente aos enigmas que não paramos de constituir.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.