
Em frase que ficou famosa, Aristides Lobo, o propagandista da República, manifestou seu desapontamento com a maneira pela qual foi proclamado o novo regime. Segundo ele, o povo, que pelo ideário republicano deveria ser protagonista dos acontecimentos, assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar. José Murilo de Carvalho. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 9.
O trecho acima alude a uma situação que pode ser generalizada em nossa história, que é a da criatividade no enfrentamento das contradições. De tal forma, se permanecêssemos somente no Brasil, teríamos uma grande dificuldade em nos depararmos com justificativas para o que Marx concebeu como luta de classes. Bem poderia caber aqui, contudo, a adequação ao conceito de alienação.
Os eventos aqui se ajustam às transformações que são de ordem mais expressivas e que são demandadas pelo movimento tectônico de amplitude mundial. Nada então diferente em comparação com outras nações, que apareceram do nada, que eram impérios e deixaram de ser ou que faiscaram primeiramente no riscado de linhas nos mapas.
Meus exemplos, no entanto, são daqui mesmo e até onde a vista alcança, resolvemos as contradições com os ajustes que todo mundo conhece como pizza. Enfileiramos casos assim e possuímos uma elite política cozida o suficiente nesse caldo que até consegue lançar no mercado quem quer que se pareça contra o regime, mesmo que dele faça parte por gerações: arremedos de cultura genuína que são práticas continuadas de trabalhos de conclusão do Ensino Médio em colégios bacanas.
Na política de alta patente, não se produz inimizade nem em relação a quem tenha participado de um golpe ou que tenha feito parte de uma ditadura. Comparado com situações que refletem urbanidade e que são colhidas como flores na história de algumas nações, o exercício do convívio entre algozes e vítimas não deveria passar desapercebido em nosso país. A maneira mais acertada de perceber e revelar esse quadro de permanência é persistir na troca informações produzidas pelos burocratas do Estado. Onde se vê indignação, pense na subida do preço da propina, troque patriotismo por preservação do status quo e se alguém defende a Amazônia, simplesmente se afaste e tome cuidado com a sua carteira.
A cultura política brasileira quando de alta expressão, ajustou-se bem ao teatro da polarização, mesmo que por aqui, como disse, seja muito difícil encontrar polos que se estranham e que não se atraiam. Temos a manifestação sistemática do circo da política quando das eleições sindrômicas que unicamente parecem nos lembrar que somos reféns desse estado de coisas. A sensação que se tem é que se não participar, vai-se em cana. Só que não. Observadores honestos nos dizem que a estabilidade em relação ao número de eleitores que não comparecem às urnas é precificada pelos candidatos que inclusive fazem as suas contas de gastos esperando que esses números se mantenham.
Em se tratando desses momentos que transformam o nosso país em uma vigília eleitoral constante, recupero os pronunciamentos que agitam a mídia nesses últimos dias. As coisas parecem mais claras quando se tratam de enfrentamentos ocorridos entre o Brasil e os Estados Unidos. Percebe-se que o Irã abriu uma temporada de manifestações estapafúrdias e que demonstram o vigor nos memes produzidos pelas big techs chinesas. Imagine supor que o Irã tenha vencido a guerra com os Estados Unidos? É evidente que nada disso aconteceu. Nem a mais comprometida leitura comparativa com a Guerra do Vietnã poderia autorizar esse sonho.
No longo prazo, quem venceu essa guerra foram os Estados Unidos. Experimente não levar em consideração o que se aprendeu jogando War com os amigos, mas sim, ter em mente o entorno que faz os Estados Unidos serem o que são, que se goste ou não. Compare praias aprazíveis e resorts cinco estrelas com medicina de ponta: o que conta mais? É forçar muito a barra e jogar para a audiência supor o mesmo em relação ao que ocorre no Oriente Médio. Falar de resiliência iraniana e exaltar essa nação é um desprestígio imenso ao que lá acontece e que vem a mobilizar todos os que se tomam como liberais de esquerda no Brasil.
O motivo de humor agora está na demonstração de indignidade patriota em relação às bravatas do presidente dos Estados Unidos. Bem ao gosto da comédia de mal gosto em que somos forçados a sermos a audiência, nosso papel é digno do Framboesa de Ouro. Contudo, reservo o lugar de destaque à mobilização da nossa soberania na defesa do crime canarinho, bem ao gosto das festas juninas e da Copa do Mundo que a tudo nos faz esquecer da miséria que é a de se descobrir brasileiro nesse mundo de meu Deus.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

