
Vivemos em um tempo marcado por uma tensão paradoxal. Um discurso que exalta a tolerância, a compreensão e a sensibilidade emocional convive com uma crescente incapacidade de sustentar o cuidado real. O filme Ninguém Pode Saber (Nobody Knows), do diretor Hirokazu Kore-eda, inspirado em um caso verídico ocorrido em Tóquio na década de 1980, evidencia de forma contundente essa falência silenciosa do cuidado.
A narrativa acompanha quatro crianças, entre 5 e 12 anos, que vivem com uma mãe emocionalmente instável, mais voltada aos próprios relacionamentos e prazeres imediatos do que à responsabilidade de cuidar dos filhos. Ao se mudarem para um novo apartamento, três das crianças são introduzidas clandestinamente, escondidas em malas para evitar a desconfiança do proprietário. Apenas o mais velho, Akira, pode circular como o “filho oficial”. Com o passar do tempo, as ausências da mãe tornam-se cada vez mais frequentes, até que um dia ela simplesmente não retorna. Sem recursos financeiros, apoio institucional ou rede de cuidado, as crianças passam a sobreviver sozinhas, em silêncio, praticamente invisíveis.
O que o filme expõe é a naturalização da omissão. Não há vilões evidentes nem explosões de indignação coletiva. Há, antes, a soma de pequenas negligências sustentadas por uma indiferença social que se apresenta como neutralidade. Vizinhos, comerciantes, escola e poder público não veem, ou preferem não ver, o que se passa. O abandono materno não é um evento isolado, mas um sintoma de algo mais profundo: uma cultura que confunde liberdade com ausência de responsabilidade e tolerância com distanciamento moral. Kore-eda adota uma estética minimalista, sem melodrama ou personagens caricatos, e assim obriga o espectador a confrontar a banalidade do descuido. O mal não se impõe pela violência explícita, mas pela repetição de omissões.
Essa falência do cuidado se manifesta de forma particularmente dramática na infância. Dados recentes publicados em um artigo da Folha de S.Paulo (2026) indicam um aumento expressivo de atendimentos em saúde mental entre crianças de cinco a nove anos. Mais do que maior visibilidade do sofrimento psíquico, esse movimento aponta para mudanças nas condições em que ele se constitui e se manifesta. A entrada na vida escolar, momento em que a criança se depara com regras, limites e exigências de socialização, coincide com esse aumento. Não parece casual. O sintoma, nesse caso, pode ser também a expressão de um mal-estar que já não encontra espaço para ser acolhido e simbolizado.
É nesse ponto que a análise de Theodore Dalrymple, em Our Culture, or What’s Left of It (2005), se torna especialmente relevante. Ao descrever o caso dos assassinos britânicos Fred e Rosemary West, Dalrymple mostra como a perversidade pode coexistir com uma rede institucional falida. Escolas que ignoram sinais evidentes de sofrimento, serviços sociais que operam de forma burocrática e despersonalizada, autoridades e profissionais de saúde que hesitam em intervir para não parecerem moralmente invasivos. Todos falham. Essa falha, longe de provocar escândalo, acaba sendo absorvida como parte da normalidade. O horror não nasce do desconhecimento, mas da renúncia coletiva à responsabilidade.
Dalrymple identifica nesse fenômeno o que denomina “visão psicoterapêutica do mundo”, a tendência a interpretar todo comportamento humano, inclusive o mais cruel, como produto de circunstâncias externas. Nesse enquadramento, criminosos e vítimas tornam-se efeitos de sistemas sociais, e não agentes morais. À primeira vista, essa perspectiva pode parecer compassiva. Ainda assim, ao diluir a responsabilidade individual, banaliza o mal e enfraquece a noção de limite, condição essencial para a vida em comum.
Frank Furedi aprofunda essa análise ao descrever, em Therapy Culture (2004), uma “cultura da terapia”, na qual problemas são interpretados prioritariamente como fragilidades emocionais, e não como questões éticas. A vulnerabilidade, em vez de acompanhada por contenção, converte-se em justificativa para a evasão do dever moral. O resultado é uma forma de infantilização social. Indivíduos e instituições passam a evitar o sofrimento e a priorizar o consolo em detrimento da sustentação de limites.
Esse movimento não se limita à forma como o sofrimento é interpretado. Ele atinge também o lugar da família na sociedade. Furedi (2023) mostra como, ao longo das últimas décadas, a família foi sendo progressivamente esvaziada de seu papel normativo. Deixa de ser uma instituição responsável pela transmissão de valores, limites e pertencimento intergeracional e passa a ser vista como um conjunto de indivíduos com interesses potencialmente conflitantes. Políticas públicas passam a fragmentar esse espaço, intervindo em partes isoladas, como a criança, a mulher e o pai, sem sustentá-lo como uma unidade relacional. O cuidado deixa de ser uma prática ancorada no vínculo e passa a configurar-se como um campo de intervenção técnica, cada vez mais terceirizado a especialistas, mediado por protocolos e, em certos casos, judicializado.
Essa delegação atinge um novo patamar com a proliferação de tecnologias voltadas à parentalidade. Em uma reportagem publicada pela The Atlantic (2025), descreve-se um mercado em expansão de ferramentas que prometem “otimizar” o cuidado com os filhos, desde aplicativos que orientam pais em momentos de crise até sistemas que automatizam interações cotidianas e dispositivos que substituem a presença humana na rotina da criança. O slogan de uma dessas plataformas sintetiza essa lógica emergente: “não pergunte à mãe, pergunte ao Milo”. Mais do que um detalhe curioso, isso aponta para algo mais amplo. O vínculo cede lugar à eficiência, e o cuidado, à conveniência.
O efeito mais visível dessa transformação é a erosão da autoridade adulta. A figura dos pais, historicamente responsável por introduzir limites, sustentar frustrações e oferecer direção, encontra-se progressivamente fragilizada. Não apenas por pressões externas, mas também por uma dificuldade crescente em sustentar o próprio lugar de autoridade, especialmente quando isso implica frustrar ou contrariar os filhos. Hannah Arendt (1961) já havia nomeado essa tendência com precisão. Ao dissolver a assimetria entre adultos e crianças em nome da igualdade ou da autonomia infantil, a pedagogia moderna não liberta, abandona. Essa assimetria não é uma forma de opressão a ser superada, mas a condição estrutural do cuidado. O adulto ocupa um lugar diferente porque assume uma responsabilidade diferente, a de responder pela criança diante de um mundo que a precede. Como observa Furedi (2023), assiste-se à dissolução da fronteira entre infância e idade adulta. O resultado é uma inversão de papéis. Crianças são convocadas a ocupar posições para as quais ainda não possuem estrutura psíquica, enquanto adultos hesitam em assumir a responsabilidade que lhes cabe. Akira, no filme de Kore-eda, encarna esse movimento, um menino chamado a sustentar um lugar que nenhum adulto ao redor ocupou.
É aqui que Donald Winnicott oferece uma chave fundamental para compreender o que está em jogo. Em Tudo começa em casa (2005), o autor argumenta que o amadurecimento depende de um ambiente que sustente, oferecendo segurança, continuidade e limites. Esse suporte, que ele denominou holding, não se reduz ao afeto, mas implica presença ativa, capacidade de conter a agressividade e de sustentar a frustração do outro sem recuar. Quando esse suporte falha, seja pelo medo de impor limites, pela recusa de envolvimento emocional ou pela delegação sistemática do cuidado, o que se instala não é tolerância nem presença. É indiferença.
O resultado, na criança que cresce nesse ambiente, é o que Winnicott descreveu como falso self, uma adaptação precoce que mascara vulnerabilidade e sofrimento sob uma aparência de funcionalidade. A criança que aprende cedo demais a não demandar, a não ocupar espaço, a cuidar dos outros antes de ser cuidada não amadurece. Aprende apenas a parecer que amadureceu.
O que se revela ao longo dessas diferentes manifestações não é um conjunto de fenômenos isolados, mas uma transformação estrutural na forma como a sociedade compreende responsabilidade, autoridade e vínculo. A erosão da autoridade adulta, o esvaziamento normativo da família e a terceirização do cuidado para especialistas, instituições e tecnologias convergem para a fragilização das bases que sustentam a ação moral. Arendt (1961) havia advertido que a crise na educação é sempre também uma crise de responsabilidade diante do mundo. Para ela, o cuidado com a criança e o cuidado com o mundo são inseparáveis. Educar é transmitir um mundo comum, construído pelos vivos e pelos mortos, a quem ainda não estava aqui para recebê-lo. Quando os adultos recusam essa responsabilidade, seja pela omissão, seja pela delegação técnica, não apenas abandonam a criança, mas abandonam o mundo como bem comum a ser transmitido. O colapso do cuidado é, portanto, também um colapso intergeracional, uma ruptura na cadeia de responsabilidade que liga passado, presente e futuro. Não se trata de pessimismo, mas de reconhecer um ponto de partida necessário para recolocar o problema nos termos que ele exige.
Talvez o problema não esteja apenas na ausência de cuidado, mas nas formas pelas quais passamos a evitá-lo, mesmo quando acreditamos estar cuidando. Entre a omissão e a intervenção técnica, abre-se um espaço em que a responsabilidade se dilui, distribuída entre especialistas, diagnósticos, dispositivos e protocolos. É nesse deslocamento que se torna possível falar da complacência dos “bons”, não como falha individual, mas como um modo de funcionamento coletivo que permite que o cuidado seja continuamente adiado, suavizado ou terceirizado. Cuidar implica presença, risco e a disposição de sustentar o que é difícil. Akira precisou aprender isso sozinho. Ao redor dele, ninguém pareceu precisar.
Referências Bibliográficas
ARENDT, Hannah. Between Past and Future. New York: Penguin, 1961.
BATISTA, Vitor Hugo; PERUZZO, Giulia. Crianças de 5 a 9 anos lideram alta de internações por saúde mental em SP. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 mar. 2026.
DALRYMPLE, Theodore. Our Culture, What’s Left of It: The Mandarins and the Masses. Chicago: Ivan R. Dee, 2005.
FUREDI, Frank. Therapy Culture: Cultivating Vulnerability in an Uncertain Age. London: Routledge, 2004.
FUREDI, Frank. The Survival of the Family Depends on the Restoration of Adult Authority. Substack, 17 nov. 2023.
RAKE, Miranda. AI Is Coming for Parents. The Atlantic, 23 set. 2025. Disponível em: https://www.theatlantic.com/family/archive/2025/09/ai-parenting-app/684303/
WINNICOTT, D. W. Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
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