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Corrupção democrática e patriótica: a terra em que tudo dá

Até que ponto podemos nos acostumar com uma cultura da corrupção de tal forma que nem sequer nos damos conta de sua existência por estar tão assimilada e naturalizada em nosso cotidiano? Pergunta que faz sentido uma vez que somos capazes de enfileirar casos sucessivos de robustos assaltos aos cofres públicos seguidos de apagamento periódico quanto às incumbências e responsabilidades de quem quer que tenha capitaneado essas ações.

É no plano do comportamento que conseguimos contemplar alguma resposta, pois é dele que se trata quando fazemos vistas grossas aos malfeitos de cada dia que se amontoam à nossa frente e à luz do dia. Impunidade é uma palavra assimilada pela mídia que transita pela política e cultura e, de tão usada, funciona como palha de aço genérica que serve para 1001 utilidades. Dependendo do quanto a corrupção envolve, já se antevê que nada irá ocorrer como resolução a não ser manter tudo como sempre foi.

O Brasil vive de contrapontos que, por vezes, atingem o nível de catarse e, com isso, um único tema dá motivo para que muitos produtos sejam criados, tais como séries de streaming ou vinhetas de telejornais, além do fato de que novas leis são concebidas e uma caça às bruxas é iniciada. Quando figuras públicas ou pessoas muito ricas são encarceradas, chegamos ao clímax do que aprendemos nos autos-de-fé: a violência vem justificada pelo ressentimento acumulado como borras sobre borras e a compaixão dá lugar à vontade de extermínio.

A classe média com instrução universitária conhece o purgatório de onde antevê todos os seus desafetos conduzidos para a expiação de seus pecados. Todo esse espetáculo que nos faz recordar as dionisíacas gregas somente termina quando nos damos conta de que o que corrompe não pode manter um lado imaculado, dado que ele sequer teria essa opção denegatória. E logo se faz notar e a todos conhecerem que se uma filigrana foi interposta junto às evidências, elas deixam de sê-las para se perderem como papeis cujo destino é a lixeira. No Brasil, aplica-se o direito de defesa que, de tão amplo, torna-se conjectura, os crimes mais bárbaros quando feitos contra o bem público. Roube-se com as leis a tiracolo e orientado pelo mantra que, de tanto repetido, torna-se uma verdade semelhante à lei da gravidade: ilibado seja o cidadão que de corrupto não tem nada. Ou melhor, contra qual nada pode ser provado.

E os nomes das operações? São tantos e em épocas diferentes que, quando são lembrados, revelam a idade e se tornam motivo de riso. E quando não se ouviu falar daquele caso, fica-se quieto supondo que se esqueceu, mas como são tantos, pode ser que um ou outro seja deixado de lado. E tudo isso sendo um marcador de comportamento de classe social, aquela que detém o capital da memória política, o que por si só já estabelece um risco no chão como toda a cara de fronteira.

Penso no cidadão comum, no motoboy que já não para mais em farol vermelho nenhum ou nos carros que sequer ultrapassam uma viatura da CET quando ela está seguindo a velocidade da pista. Esta micro corrupção que nenhum alemão iria assimilar já faz parte do nosso dia a dia e é afilhada dos casos mais acintosos que ganham as primeiras páginas nas redes sociais.

Mas é sempre possível que se tome acontecimentos assim como corriqueiros, que se somam aos outros e terminam por pintar um quadro com as cores da teoria da conspiração que atira a todos na vala comum dos desesperados por terem se dado conta que aqui vivem.

Mas nem tudo é catástrofe sem solução e se pode sobreviver vendendo narrativas que clamam pela ética da delação genérica que para tudo aponta e para nada se dirige. Textos edulcorados e com paixão controlada que, já que escritos em bom português, delatam o capital simbólico daqueles que assim se manifestam, até mesmo e inclusive quando fazem do ativismo uma posição que se tem logo quando se acorda, lá pelas 10 horas da manhã. A corrupção é a progenitora de todas as ideias, e insights que ganham o nome da moda podem até ser conhecidos como startups ou colabs.

A política que por aqui se manifesta é oriunda do que de mais ilícito possa haver e, no entanto, é manifestada como se somente através da metafísica do bem pudesse ser alcançada. Entre nós, o maior de nossos algozes é a ideia de que haja algo de genuinamente platônico e bom na condução dos negócios em torno do que concebemos como Brasil.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.