
Hybris é conceito grego que pode ser traduzido como um descomedimento devido a uma ação humana imprudente, geralmente de um herói trágico que pagará caro por desafiar os deuses. Este foi o conceito escolhido para nomear esta coluna mensal que visa à provocação. Hybris expressa a essência do agir humano no mundo; atos situados entre a pequenez ontológica e as grandes aspirações existenciais. Estamos neste palco chamado LABÔ, local que insiste em fazer ecoar o canto dos trágicos.
É simplesmente aterrador o modo como a ignorância vem se tornando uma doença degenerativa em estágio terminal no Brasil contemporâneo. Parece que a cada dia que passa menos se crê, ou menos se reconhece, o valor do conhecimento em seu potencial de transformar o mundo em um lugar menos assombrado pelo obscurantismo. Mas, veja bem, não digo isso para traçar uma diferenciação entre a academia dos eruditos e a vida comum do homem ordinário inculto; o que mais assusta neste movimento é que as próprias universidades também estão se tornando um lugar de descrença do esclarecimento.
Hoje em dia, a maioria das pessoas simplesmente despreza o conhecimento. Sua importância existe apenas enquanto finalidade pragmática mercadológica, isto é, a boa educação é aquela que ajuda a pessoa a ganhar dinheiro. Se estuda sob a crença de que aquelas horas na sala de aula se converterão em uma boa colocação no mundo profissional. O repertório por si, a reflexão desinteressada, o conhecimento enquanto fonte de pensamento autossuficiente são considerados grande perda de tempo. Atualmente, a esmagadora maioria dos pais que pagam escolas caras para seus filhos preferem reencontrá-los no futuro ricos e ignorantes a sábios e pertencentes à classe trabalhadora. Em um mundo de miséria espiritual, a sabedoria se torna um valor supérfluo perto da possibilidade de se financiar um carro caro em 24 vezes.
Eis a crise da docência na contemporaneidade. Ser professor virou sinônimo de fracasso. Os alunos, no ensino básico ou no superior, olham para os professores com certo desprezo, não compreendem o porquê de eles terem escolhido um caminho de tanto estudo e pouquíssima recompensa material. A maioria das pessoas que cresceram frequentando escolas altamente conceituadas e depois frequentaram universidades de renome acabaram se afastando do mundo docente, como se este fosse um caminho que acabasse por limitá-los. Nem os alunos acreditam no valor do conhecimento enquanto finalidade própria; para eles é apenas mais uma etapa a ser ultrapassada para que possam atingir seus objetivos profissionais e financeiros.
A famosa ideia de que a filosofia nos tornaria livres por ser uma atividade que termina em si mesma, sem estar presa a qualquer outra finalidade alheia, hoje é vista como um delírio, e dos graves. Neste mundo pragmático e veloz em que vivemos não há tempo para se “perder” com uma atividade tão supérflua quanto ler um livro de filosofia. O tempo livre, aquele que divide espaço com o tempo produtivo do trabalho, se tornou também um tempo de produção e autoaperfeiçoamento, isto é, nem em nosso período de descanso podemos descansar; somos possuídos por um sentimento de culpa por estarmos inativos; precisamos investir em nós mesmos para retornar ao trabalho de modo mais eficiente. Neste tempo de “liberdade” podemos tanto investir em aprendizados pragmáticos para complementar nossa produção profissional, como também nos divertir, de modo programado, para “descansarmos” o máximo possível para posteriormente retornarmos ao ofício com maior disposição. O ócio não é mais reconhecido enquanto tempo criativo e recreativo.
Ainda me lembro de quando uma pessoa próxima a mim ficou indignada ao descobrir que eu recebia uma bolsa de pesquisa que me auxiliava durante meu doutorado. Ela me perguntou o que justificava eu ganhar perto de dois salários-mínimos por mês (esta fortuna), sendo que tudo aquilo que eu fazia era inútil perto de um padeiro, que, por vezes, não chega a ganhar este salário, mas que pelo menos produz algo concreto que é o pão.
Tampouco as escolas acreditam na educação. Hoje é comum encontrarmos professores, ou pessoas ligadas à educação, dizendo que repertório é algo supérfluo, e que as aulas devem ser as mais práticas possíveis, para não fazer os alunos perderem seu tempo com meras teorias distantes do mundo real do mercado. Já cheguei a ouvir questionamentos do porquê eu cobrava textos para os alunos lerem, uma vez que eles nunca liam de fato. No entanto, o caso é ainda pior, porque atualmente nem os próprios professores estão estudando mais; é raro ver um acadêmico, que não esteja no mestrado ou no doutorado, estudando e, quando estuda, raramente foge de sua bolha bibliográfica.
A doença da ignorância tem como sintoma principal a incomunicabilidade. Aquele que está tomado por ela, sobretudo nos estágios médios e agudos deste mal, simplesmente não consegue conceber mais a importância de qualquer coisa que fuja do pragmatismo cotidiano; não importa o quanto se explique, o paciente te olha de modo indiferente e vazio. É uma degeneração epistêmica grave. Esta enfermidade só é percebida por aqueles que não estão infectados pelo vírus, e que se vacinam recorrentemente com doses diárias ou pelo menos semanais de cultura. Ambas as partes não se entendem: o amigo da sabedoria não entende como pode haver o desprezo pelo conhecimento em um mundo tão vasto e complexo, na mesma medida em que o enfermo da ignorância não entende o fascínio pelo pensar.
O que está diante de nós é a vitória ideológica do capitalismo neoliberal. É alçar o capital ao patamar de maior importância da vida, descredibilizando todo e qualquer valor alheio. É a razão pragmática, não apenas eclipsando, mas pulverizando a razão reflexiva. Alunos que preferem trabalhar no período da aula, fazendo as mesmas tarefas repetitivas de sempre, a prestar atenção na aula é a prova de que o conhecimento foi fagocitado pela burocratização do ensino. A nota no boletim é um mero simulacro falacioso de um conhecimento que não está gravado onde deveria, que é na alma do discente, conforme defendia Platão.
Trabalhos universitários via inteligência artificial não são apenas uma falsificação imoral por parte do aluno, mas um suicídio epistêmico. Quando a máquina “adianta” o processo direto para o “resultado”, acaba por “pular” aquilo que deveria ser sua atividade principal, que é o tempo do pensar para se construir a atividade acadêmica. O conhecer não se trata de resultados, e sim de processos.
Uma sociedade tomada pela pandemia da ignorância é uma sociedade refém de sua própria ignorância. A burrice é algo que nos pega no contrapé. É a impotência diante de oportunistas que usam do desconhecimento massivo para tirar proveito. Nisto temos todas as classes de canalhas, de políticos a empresários, de líderes religiosos a coaches, de picaretas que vendem cursos de autoajuda a psicólogos de Instagram. É quando a uberização do trabalho vira empreendedorismo, quando bets viram diversão, quando política se converte em reality show, quando IA vira professor e quando o mundo se resume a uma tela.
Enquanto não percebermos que o único modo de se vencer o obscurantismo é com o esclarecimento, seguiremos reféns em um mundo assombrado por demônios.

