Sala Michael Oakeshott

Rationalism in Politics [1]

Primeiro encontro de 2020 do Núcleo de Filosofa Política
Rationalism in Politics – Michael Oakeshott

Racionalismo em Política e Outros Ensaios (conjunto de ensaios) traz em seu cerne a crítica ao racionalismo na sua tentativa de extrapolar os limites da própria razão. Extrapolação que na política produziria uma série de ideologias nefastas. E isto ocorreu pelo fato dos racionalistas ignorarem a própria condição humana, rompendo com a tradição (hábitos). O que teria dado vazão às “técnicas racionalistas” – universalizar, uniformizar, homogeneizar – aplicadas à política. É uma crítica não ao uso da razão (irracionalismo), mas à pretensão apresentada a partir dela. Portanto, uma crítica ao colocar os racionalistas como moralmente superiores.

O primeiro ensaio, Racionalismo na Política, trata do racionalismo moderno com ênfase na Europa. Inicia criticando o “caráter e a disposição racionalista”, que enaltece a razão em detrimento da experiência (hábitos), citando uma série de eventos, pensadores, escritos, que estão neste contexto pós-renascentista. Na segunda parte do ensaio, apresenta o que seria o conhecimento técnico e o prático, e sua necessidade simbiótica – ignorada pelos racionalistas. Na terceira parte, Oakeshott apresenta os precursores do racionalismo moderno – Bacon e Descartes – e as consequências disto. Na quarta parte, trata dos prejuízos que este racionalismo causou na política a partir das ideologias, finalizando com uma dura crítica aos racionalistas – “espetáculo de um bando de hipócritas” – que teria produzido a “ideologia de altruísmo e serviço social”.

Oakeshott mostra a distinção entre a política racionalista e uma política genuinamente experimentada na tradição. No caso do racionalismo, ou da “disposição racionalista”, a política se torna uma engenharia social. Michael Oakeshott alerta para os prejuízos do “racionalismo moderno” na política (também na educação, arte, moral, religião), logo sua preocupação era com os rumos que a política moderna europeia seguia já desde o século XVII.

Na modernidade, a razão, como autoridade, se impõe frente a qualquer tipo de tradição, hábito, crença. Este uso da razão, de viés “otimista”, se propõe a ser fonte ou forma do conhecimento absoluto e uniforme da realidade. Um racionalismo tanto da “destruição quanto da criação”, ou seja, aquilo que é antigo ou obsoleto deve ser destruído (não melhorado ou consertado), o que abre caminho para novas criações racionalistas. Desta forma, o racionalista é opositor das tradições (experiências e hábitos), pois entende que estaria submisso a estas. No lugar (destruir) das tradições surgem (criar) as ideologias. Com isso, o racionalista se torna uma espécie de “engenheiro” do seu tempo, único capaz de solucionar os mais diversos problemas. “Como destacou Voltaire, o único jeito de termos boas leis é queimando todas as leis existentes e começar do zero”. Sem dúvidas, esta frase resume bem a visão racionalista moderna que Oakeshott critica, sendo ele um cético ou um agnóstico.

Para Oakeshott, esta engenharia da política seria o “mito da política racionalista”, pois suas supostas soluções produzem novas crises, retroalimentando seu modus operandi: crises-soluções-crises. O racionalista não entende que a razão possa solucionar tudo no mundo, mas tudo o que pode ser solucionado só o pode por via racionalista. A ânsia que o racionalismo tem por estabelecer soluções perfeitas para a humanidade (a priori) é a faceta idealizada do racionalismo. Segundo Oakeshott, os “dois tipos de conhecimento” são siameses: o conhecimento “técnico” e o “prático”. Enquanto o primeiro é passível de método e determinação lógica, o segundo não o é, e nem por isto deixa de ser conhecimento; o que o racionalista ignora preferindo o primeiro, uma vez que este segundo está localizado na tradição, no hábito – sem método. Para Oakeshott, é a simbiose entre técnica e prática que torna viável o conhecimento, logo a política. O conhecimento técnico pode ser “ensinado e aprendido”, mas conhecimento prático só pode ser “comunicado” e “adquirido”.

O racionalista ignora a importância do conhecimento prático por este não se enquadrar no método racionalista, uma vez que a “certeza” para o racionalista só pode ser obtida por meio técnico-racional: “sua grande ilusão é de uma soberania técnica”, diz Oakeshott. Figuras como Bacon e Descartes foram precursores deste pensamento racionalista, apostando na força da razão, eliminando ao máximo a dependência das percepções sensoriais que formam a experiência, os hábitos: “o conhecimento seguro só pode florescer em uma mente vazia”, assim pensavam. O que se seguiu ao longo dos séculos foi uma enxurrada de técnicas aplicadas às mais diversas áreas do conhecimento: arte, religião, política. Esta técnica buscou até mesmo “substituir um benevolente e infalível” Deus, cita Oakeshott. A Europa apresentava uma sociedade mais deslumbrada com o que era “descoberto” do que com o que era “herdado”.

Assim surge a política racionalista, onde seus atores são respeitados se revestidos das ideologias dos “livros de manuais”: “(…) tudo o que Burke denominou de ‘parceria entre presente e passado’” é visto como puro esoterismo ante o racionalismo. Este racionalismo, diz Oakeshott, permitiu que incapazes e inexperientes “oportunistas políticos” ascendessem ao poder agarrados a manuais técnicos sobre política (como O Príncipe, de Maquiavel), pois não possuíam “educação política”. Escritos por pensadores como Locke, Bentham e Godwin, Marx e Engels, estes últimos como símbolos máximos. Para Oakeshott, este racionalismo invadiu não só a Europa, mas os EUA, ao encontrar nos documentos constitucionais a influência racionalista, alardeada por Jefferson e os pais fundadores (influência lockeana). Segundo ele, a Declaração de Independência não deve nada, em termos racionalistas, à Revolução Francesa.

Assim, o racionalista não acredita numa educação advinda do hábito, da tradição, mas dos manuais escritos por mentes racionalistas. Não bastasse, o racionalista entende sua educação como superior, e, perigosamente, a sua moral (livre intelectualidade) também. Perigosa, pois tudo o que confronte sua ideia moral de mundo se torna automaticamente imoral para ele – passível de destruição. Com isso, o racionalista promove, a seu modo, uma educação moral também. A moral deixa de ser comunicada e adquirida, para ser “ensinada”. A política vira campo de propagação da técnica, da moral racionalista e de uma ideologia da perfeição humana via manuais.

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Sobre o autor

Fabiano Mina

Formado em Filosofia, mestre em Filosofia da Religião. Coordenador da pós-graduação da Faculdade Exato. Professor da pós-graduação da Faculdade Teológica Batista de São Paulo (História e Metodologia) e do Ensino Médio do Colégio Batista e Rede Pública Estadual. Pesquisador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

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