Sala Michael Oakeshott

Rationalism in Politics [3]

Terceiro encontro de 2020 do Núcleo de Filosofia Política
Rationalism in Politics – Michael Oakeshott

Na Europa pós-renascentista, o surgimento de uma nova figura intelectual tornou-se objeto de pesquisa e crítica para o filósofo político britânico Michael Oakeshott, que em um de seus ensaios (Rationalism in Politics) descreve o racionalista moderno como um personagem intelectual oriundo de uma crença demasiada na lógica mental.

Para Oakeshott, o racionalista é aquele que deposita toda confiança em suas faculdades intelectuais, e qualquer outra maneira de encarar uma situação é desvalorizada e julgada como esoterismo, portanto, indigna de consideração. Ainda para um racionalista, nenhum juiz é tão eficaz quanto a razão. As tradições, heranças, os aprendizados ao longo da história ou outro tipo de conhecimento empírico não têm importância e devem ser excluídos na análise e solução de um problema, sendo, assim, substituídos por uma ideia criada através da lógica.

Para o autor, um dos grandes pecados dos racionalistas encontra-se no seu caráter tecnocrata, pois, segundo Oakeshott, todo e qualquer conhecimento humano é composto da ambivalência entre o que ele chama de conhecimento técnico e conhecimento prático.

O conhecimento técnico, ou da técnica, é aquele que pode ser aprendido ou ensinado, transmitido em manuais, receitas, livros, em cursos à distância etc. Já o conhecimento prático, por sua vez, não pode ser ensinado nem aprendido, apenas comunicado e adquirido através da experimentação, de experiências reais ou convivência com alguém que saiba fazer algo. Neste ponto, é possível fazer-se ligação com um certo sentido de tradição, ao fato de que toda tradição contém registros de erros e acertos e que esses erros levam o racionalista a pensar que criar algo do zero, ou seja, evitando tais erros, seria uma solução “perfeita” ou “ideal”.

Essas ideias remetem à teoria da tábula rasa, de John Locke, e à Voltaire, quando este diz que para ter leis boas as velhas devem ser queimadas devendo-se começar do zero. Tais falas são de notório cunho racionalista, que, no século XVII, estava em voga na Europa e presente tanto na ciência quanto na política.

Grosso modo, a técnica é mais fácil de se obter, já que depende de estudo, enquanto a prática, por sua vez, depende de vivência. Além disso, o conhecimento técnico é marcado pela suposição da certeza, e o prático pelo oposto.

Essa combinação de certeza, confiança na técnica e supervalorização da razão, para Michael Oakeshott, poderia ser danosa, sobretudo no campo da política, já que ele reconhecia a inexatidão e entendia a imprecisão de tal ciência que depende de um conjunto de influências, acontecimentos, interpretações, entre outros fatores. E a pretensão de criar um método universal para ser aplicado em todas as áreas e obter o mesmo resultado esperado é um tanto quanto utópico, mas esta é uma das principais características do racionalismo moderno. Ainda no ensaio ‘Racionalismo na Política’, ele cita como exemplo dois autores que foram precursores dessa moda intelectual na Europa e demonstra que em suas filosofias há vestígios ou nímio racionalismo.

Francis Bacon e René Descartes são figuras que marcaram o pensamento racionalista no início do século XVII. Para Bacon, não bastava apenas a crença na soberania da razão, era necessário ter um método sistemático para que a razão fosse guiada. A ambição de Bacon era demonstrar que é possível comprovar a verdade através de um sistema universal. Descartes, como ele, acreditava que o conhecimento só se faz em uma mente inane, e também assumia a existência de um método infalível de aplicação universal, formado por um conjunto de regras. Por fim, desacreditava de tudo o que havia fora do conhecimento científico.

Em suma, a ascensão do racionalismo do século XVII pode ser atribuída à exagerada e pretensiosa esperança de Bacon em criar um método universal; bem como à falta de autocrítica de Descartes e sua confiança exacerbada na própria razão. Além disso, por, na época, parecer um pensamento sofisticado, grandes mentes se aliaram a essa corrente buscando distinção; embora a decepção com a providência divina tenha sido outro fator que contribuiu para o crescimento do racionalismo, com declínio da crença em dogmas e em Deus, que foi destituído e seu lugar ocupado pela ciência.

Embora seu crescimento tenha sido grande, o racionalismo não deixou de atrair também críticos. Oakeshott cita um grande nome da crítica ao racionalismo, que foi Blaise Pascal. Pascal, como poucos, capturou a essência do questionamento ao racionalismo, que resume nas seguintes palavras: “A significância do racionalismo não se encontra na ênfase ao conhecimento técnico mais sim em sua cegueira quanto aos outros conhecimentos. Seu erro filosófico reside na certeza que é atribuída à técnica e sua doutrina da soberania desta; seu erro prático advém da crença de que nada além dos benefícios despontaria de uma conduta autoconsciente.”

Tanto as críticas de Oakeshott quanto as de Pascal foram importantes para a compreensão da política e continuam sendo de suma relevância na contemporaneidade, mostrando-nos as armadilhas do racionalismo, levando-nos a optar pelo caminho da prudência, evitando grandes erros históricos cometidos por iniciativas provindas de ideias racionalistas.

Sobre o autor

Eduarda Kethelen

Pesquisadora do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.