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Linguagem conotativa e comportamento político

As palavras são importantes na expressão do comportamento político, ainda mais num contexto de posts, tweets e, vez ou outra, cartazes de cartolina nas manifestações, instante em que muitos se transformam em marqueteiros e se arriscam num slogan chiclete. É evidente que podemos fazer uma pesquisa de mapeamento daqueles termos que manifestem a adesão a um ou outro lado do espectro político contemporâneo. Isso parece até mais fácil, uma vez que a linguagem política tem se servido de jargões e clichês e, por isso mesmo, vem se tornando muito repetitiva. Decerto por demonstrar a superficialidade do conhecimento sobre a teoria e o fazer político. A franca aderência às causas e a emoção incontida nas expressões que pretendem estabelecer identidades de modo ligeiro estão muito longe da prudência da reflexão na política que podemos constatar nos textos clássicos. Política e emoção nunca fizeram uma boa parceria e os resultados costumam ser lastimáveis, como já apontava o crítico literário norte-americano Edmund Wilson, no seu ensaio Patriotic Gore (Sangueira Patriótica), publicado nos Estados Unidos em 1962 e, no Brasil, no livro Onze Ensaios: literatura, política, história (Seleção e prefácio de Paulo Francis; São Paulo: Companhia das Letras, 1991).

A chave de acesso para a abordagem dos sentidos e significados de algumas dessas palavras que manifestam emoção, crítica, aderência ou repulsa política é a percepção de seus usos como conotativos, figurados ou subjetivos. Os substantivos, ou verbos substantivados, também ganham espaço, e isto por possuírem sentidos figurados, um tanto distantes daquilo que denotam de fato. Observa-se a insistência no uso de verbos, uma vez que eles indicam ação, o que é desejado no âmbito da polarização política. Algumas palavras guardam proximidade com uma ambientação da década de 60, e isto se explica pela recuperação historiográfica e cultural desse período da história do Brasil, bastante alimentado pelo ressentimento em relação ao que veio a ocorrer, bem como embalado por um viés igualmente marcado pela emoção. Já tivemos a oportunidade de abordar aqui a hipótese de que a retomada constante desse período na atmosfera política brasileira seja resultado da presença de personas políticas que viveram naquele contexto, tanto do ponto de vista daqueles que exploram politicamente esse capital eleitoral quanto dos outros que se valem dele como moeda na economia de suas relações sociais. Expressões obtidas e veiculadas em filmes, séries ou músicas devem ter contribuído para tanto. E a manifestação deste comportamento expresso nas atitudes e escolhas de determinadas palavras também indica o quanto se conseguiu manter distante desses acontecimentos, buscando um mínimo de ceticismo: a emoção parece ser a chave de acesso. Mas não descartamos modismos e necessidade de compartilhamento de valores equivalentes no circuito social sem que se tenha convicção política: parece difícil deparar-se com opiniões sinceras em relação às aderências ou repulsas políticas, uma vez que o lado individual chama mais atenção que o coletivo.

As profissões podem também conferir um espaço de delimitação dos valores esposados pelas palavras usadas no sentido figurado. Sempre mais fácil, porque necessário, parecer de esquerda num espaço profissional que guarde proximidade inconteste com este viés da política. Professores, psicólogos, médicos sanitaristas, advogados trabalhistas, urbanistas, artistas, dentre outros casos, transitam por espaços em que a troca de informação, da mais básica à minimamente sofisticada, passa pela aderência ao credo da esquerda. Espaços de atuação, acessos aos financiamentos públicos, tudo isto seria comprometido em caso de manifestação de apoio à direita. Vendedores, donos de pequenos negócios, empregados domésticos, motoristas de transporte coletivo, táxis ou caminhões seguramente seriam enquadrados na hipótese em que a política não constitui tema de compartilhamento de informações no âmbito dos seus afazeres. Uma padaria que esposasse uma causa político-partidária correria o risco de perder clientes, ou seja, a política faz mal a este tipo de negócio.

Vamos então dispor algumas palavras usadas do ponto de vista conotativo, na perspectiva da proposta de uma pesquisa que se faça nas redes sociais. Sangrar, ocupar, tombar, conquista, luta, pacificar, segurança, resistência são algumas delas. Segurança e pacificar estão mais próximas do uso político da direita. Todas as outras se aproximam do espectro de esquerda. Luta, conquista, tombar e sangrar podem aparecer juntas, o que matiza o que se deseja comunicar. Resistência é o caso de uma palavra obtida no contexto da Física e que exige conhecimento para que seja reconhecida em sentido conotativo. Funciona também no infinitivo, pois amplifica o poder metafórico, gerando expectativas de continuidade. Não Passarão é outra expressão consagrada que vem diretamente da década de 60. Companheiro ou companheira designam tanto um tratamento entre pares que se reconhecem como sendo de esquerda quanto uma variação não burguesa ou possesiva para minha esposa ou minha mulher. Tombar não é um verbo tão usado no português coloquial, e por isso pode ser facilmente compreendido quando carrega algum tipo de metafísica política. A variação de direita é, sem dúvida, morreu no cumprimento do dever, modo de se referir aos policiais que foram vítimas daqueles com quem se confrontaram. Sangrar, evidentemente, tem uso corrente e merece ser pesquisada no contexto de sua utilização ou na associação com outras palavras. O mesmo pode ser dito em relação às palavras luta ou conquista, dados os sentidos denotativos utilizados com frequência. É bom que se observe e que se leve em consideração o tipo de menção poética que pretende encantar pelo idealismo, daí as alusões aos que “tombaram na luta e sacrificaram suas vidas pelas conquistas que hoje querem nos solapar”, por exemplo. Quanto às designações, presidenta não pressupunha o uso correto e ortodoxo do português, mas sim o fato de que a pessoa que assim se pronunciasse era defensora do PT. Caso parecido é o do uso da expressão capitão reformado, que também aponta para a oposição a Jair Bolsonaro, por conta do entendimento que se tem em relação à ditadura militar no Brasil. Chamá-lo de Messias amplifica a crítica, uma vez que o associa também às religiões evangélicas. Nesse caso, há um ataque duplo, o que possibilita a percepção do comportamento de modo mais rico.

Proponho aqui que mais palavras sejam pensadas e sugeridas. Quais seriam as maneiras, a metodologia e o tipo de análise que poderíamos utilizar?

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.