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Você falaria de política num jantar?

A pergunta é bem simples e direta. Uma amiga lhe convidou para um jantar com algumas poucas pessoas que não são suas conhecidas. A conversa vai seguindo e o assunto política vai ganhando espaço. Você percebe que as pessoas têm opiniões muito claras e até radicais sobre o assunto – imagine você o cenário, podem ser pessoas que apoiem Bolsonaro ou então que tenham bastante identidade com algum nome da esquerda, Lula, por exemplo. O fato é que você pensa exatamente o contrário de todos que estão ali. O que você faria? Compartilharia a sua visão sobre política no grupo? E se o fizesse, ou não, quais seriam os seus motivos? E qual é a sua visão sobre o nome que está em questão?

Esta foi a proposta de uma pesquisa realizada pelo Pew Reserch Center, sediado em Washington, Estados Unidos. Ela foi publicada em 30 de outubro de 2019. Amina Dunn, Jocelyn Kiley, Alissa Scheller, Daniele Alberti e Carrol Doherty assinaram o artigo “Across the table: Would you share yours views of Donald Trump over dinner?”.

Ao acessar o artigo, você pode responder de modo interativo às perguntas que já foram mencionadas acima. Depois disso, de acordo com as suas respostas, sua posição é comparada com as dos americanos que haviam respondido a estas questões numa pesquisa de opinião pública realizada de acordo com uma metodologia que envolvia amostras. A proposta, então, era que você entrasse no cenário. Por fim, você também pode tomar contato com opiniões das pessoas que tem um ponto de vista parecido ou não com o seu.

As campanhas políticas aparentemente não param mais ao final de uma eleição, e, como não desejam permanecer no centro, os pretendentes aos cargos (não apenas majoritários) tendem a radicalizar as suas posições, de tal modo que as vezes parecem somente desejar emular uma opinião por entender que ela pode provocar, causar, agitar a opinião pública para a resposta daqueles que se afinam ou não com o que foi dito.

Na lógica da polarização, os atores políticos, independente de que lado estejam, parecem procurar incitar ambos os lados do espectro, seja à esquerda ou à direita. Assim, se a resposta foi muito negativa por parte de um lado, melhor. Nesse sentido, os lugares de polarização cresceram em oferta. Os jantares são um deles. Os grupos de WhatsApp, outro. Sejam eles da família, de amigos mais antigos ou até mesmo o de trabalho.

Assim, o tema política, hoje, ganha ares de assunto pessoal, particular e revelador. Mas não é isso somente. Sua orientação religiosa, se você tiver uma, ou então se você for ateu. O local em que você estudou e o curso que fez. Sua identidade de gênero e étnica. Em princípio, todos estes aspectos se perfazem hoje, de acordo com o público em questão, em desdobramento e indicadores do comportamento político.

Pierre Bourdieu (1930-2002) definiu assim o conceito de habitus: temas, assuntos, expressões, gírias, atitudes, comportamentos, que são compartilhados por um público que guarda alguma identidade entre si e que sequer são percebidos, de tal forma como se fossem uma segunda pele. Dependendo do grupo social a que nos reportamos, o habitus hoje parece extremamente politizado.

Assim, tenhamos em mente que o fato de preferirmos determinados pratos, de uma cozinha específica, ou então termos afinidade por um tipo de moda ou estilo, apreciarmos uma proposta artística em especial, aguardarmos pela estreia de um filme, todos estes aspectos, além de tantos outros, dizem muito a respeito do nosso posicionamento político. É exatamente isto o que nos interessa na pesquisa no comportamento político.

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.