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O debate público adulto é um fóssil de milhões de anos

Quem tem palpites sobre como chegamos até aqui, em se tratando do estado atual do debate público? Alguém arrisca? Eu tenho algumas ideias e impressões que não são somente feelings ou insights, mesmo que eu saiba que nada pode ser provado ou justificado como numa equação matemática. A prova dos nove nas especulações históricas hoje se assemelharia a uma lacração e aqui já estamos no diagnóstico do contemporâneo.

Uma de minhas hipóteses guarda ligações com o passado. Quanto mais perto estamos do século XIX, mais proximidade com o decoro, com normas de erudição, com constrangimento social difundido em casa e com demais preocupações quanto ao comportamento em público, o que não era exatamente pouca coisa uma vez que poupávamos os outros do que quer que viesse a ser grotesco.

De fato, o projeto civilizatório dessa época – com todos os malefícios que são continuamente enfatizados, muito mais do que as qualidades positivas – predispunha ao debate público que fosse conduzido com clareza e com a expectativa de que ambas as partes se ouvissem mutuamente. Retomo os encontros entre Abraham Lincoln e Stephen A. Douglas – mencionados uma vez aqui na Behavior – em 1858 em que os debates poderiam durar seis horas ou mais. Mesmo as cenas que nos chegam dos discursos de algumas personalidades da época nos mostram uma densidade que nos faz pensar no tipo de pessoa que estaria pronto para apreciá-los. Neil Postman, o autor que nos deu acesso a essa informação, se perguntava:

“Que tipo de público era esse? Quem eram essas pessoas que poderiam acomodarem-se tão alegremente para acompanhar sete horas de oratória? Deveria ser notado, a propósito, que Lincoln e Douglas não eram candidatos à presidência; nessa época do encontro em Peoria eles nem eram candidatos ao Senado dos Estados Unidos. Mas esse público não estava especialmente preocupado com os status oficial dos debatedores. Essas eram pessoas que olhavam para eventos desse tipo como essenciais para a sua educação política, que os levavam a ser parte integrante de suas vidas, e que eram apresentações oratórias bastante extensas. Tipicamente em feiras de condado ou estaduais, os programas incluíam muitos palestrantes, a maioria dos quais tinha três horas para os argumentos. E como era preferível que os palestrantes não ficassem sem resposta, seus oponentes tinham um tempo igual.” Neil Postman. Amusing Ourselves to death: public discourse in the age of show business. New York: Penguin Books, 1985, p. 44.

Para Postman, eventos dessa natureza compartilhavam uma cultura letrada que era protagonizada por escritores tais como Mark Twain, Emily Dickinson, Whitman, James Russell Lowell, Henry Thoreau, Herman Melville, Longfellow, Nathaniel Hawthorne, Ralph Waldo Emerson e Edgar Allan Poe. Tamanho peso literário, combinado com repertórios muito densos e profundos – mesmo que habilitassem a escrita de histórias que prendessem a atenção, como Tom Sawyer, A Letra Escarlate ou Moby Dick – deve guardar proximidade com a demanda por debates tão qualificados cujo foco era a ampliação do conhecimento sobre a política.

Mas a moldura era outra e muito diferente daquela que passamos a lidar a partir da segunda metade do século XX, momento em que o debate público se reconfigurou para conquistar uma audiência através de outros aspectos, a maioria deles distantes ao fazer político mais tradicional. E, se numa democracia, o que importa é ser legitimado pela maioria, nem sempre é por virtudes que as pessoas conseguirão chamar a atenção.

Costuma-se cravar o debate presidencial norte-americana entre Richard Nixon e John Fitzgerald Kennedy, em 1961, como um marco nessa virada, ou seja, a primeira vez em que a estética do candidato, se ele apresentava sudorese ou não, se possuía um terno bem cortado e ajustado, veio a ser o fiel da balança, sendo que as ideias e propostas começaram a ser colocadas para o escanteio. Em vista disso, e tomando esse momento como uma referência, buscar a atenção do público passou a ser o foco, mesmo que para tanto, toda sorte de procedimentos pudesse ganhar expressão.

Não nos deveria provocar surpresa o fato do debate público contemporâneo poder contar com cadeiradas ou troca de socos. A maior parte da mídia, contando nela os jornalistas, articulistas ou formadores de opinião, está muito longe daqueles seus pares que mencionamos e que participavam do debate nos Estados Unidos da segunda metade do século XIX. Ou seja, temos um corpo de intérpretes do fazer político que em muito se equivale aos protagonistas das campanhas que se fazem em nosso tempo. E quanto ao público propriamente dito? Quando ele existe, parece mais atento ao que possa despertar o riso com a mais completa quebra de protocolo. O que se deseja dispor aqui é que não há um outro lado, além do muro, e que venha a contar com a lucidez que se pretende exibir. A mídia de plantão se equivale aos mais histriônicos candidatos.

No jornalismo político, há um bom tempo, não nos deparamos com luminares capazes de concatenar bem as ideias através do bom uso das palavras, nem de contribuir de modo mais objetivo com a interposição de novos argumentos que viabilizem a reflexão mais desinteressada em defender um lado contra o outro. O espirito woke cresceu como uma praga nos espaços que eram frequentados por gente como Henry Thoreau ou Herman Melville. Hoje, temos influencers e youtubers que disputam a nossa atenção, buscando qualquer coisa que possa ser abduzida pela política. Creio que seja exatamente por isso, que raramente tomamos contato com interpretações que nos atraíam por terem contribuído no nosso aprendizado. O wokismo provoca tédio e nos dá sono e sim, a imprensa e os eleitores, de uma maneira geral, estão no mesmo patamar que os candidatos que vemos pelo país. Mente quem pretende ganhar visibilidade por acreditar que esteja no lado santo desse inferno ao qual chegamos.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.