
Não são necessariamente ricos ou bem nascidos, mas identificam os meios para sobreviver como se fossem treinados para saírem intactos de um apocalipse zumbi. Pode ser que para tanto conte o tempo de aprendizado em família quanto ao que deve ser feito para não chamar a atenção, quase que desaparecer na paisagem confundindo-se com vasos e paredes. Mas não creio que seja somente a família. Seus mestres e referências são aqueles oportunistas que ganharam a cena com uma tirada ou duas e que não se comprometeram com ninguém que pudesse causar algum dano.
Trata-se de um tipo que desenvolveu habilidades que não causariam inveja aos nossos ancestrais do paleolítico, aqueles injustiçados pela metafísica que se produziu no Iluminismo. A proteína ainda está no radar, porém, para alcançá-la, o woke se esmera em distrair a freguesia, e o faz na manipulação daquilo que ainda resta de possibilidade de confundi-los: a lenda urbana das causas. Uma expressão que se vale da impossibilidade de seu enfrentamento, posto que remeteria o oponente à condição da vilania.
Hoje esse ser ganha corpo na busca pelo engajamento, nos papeis dos protagonistas dos filmes, quer sejam cults ou não e nas obras de literatura que fazem a vida dos resenhistas uma vez que, como tudo é uma receita, mais fácil e oportuno fica contar e interpretar. Contanto em que não se saia do quadrado. Mas quem o faria? Além da impossibilidade pela ausência de repertório, o que dizer das migalhas de espaço que poderiam ser perdidas?
Mathieu Bock-Côté, no O império do politicamente correto (São Paulo: É realizações, 2020), ainda que não aborde o wokismo, mostrou-se astuto em situar as perseguições a todo tipo de populismo ou das fake news, como tributárias da censura e do estabelecimento de um pensamento único. Perceba que o autor não defende os populismos nem as agressões à democracia, mas sim, identifica a ausência oportuna da percepção de que não há um consenso sobre as causas que são herdeiras dos Radical Sixties, como ele nomeia o ponto original do que hoje poderíamos chamar de wokismo.
Para Bock-Côté não existe a aceitação plena de um mundo como o que se encontra idealizado em muitas das mídias tradicionais, as fontes para o conto de fadas encaminhados pela elite woke. Mas se essas criaturas veem uma lógica fantasiosa que estabeleceu uma aliança entre a publicidade, o direito, as produções do cinema norte-americano e os partidos políticos de esquerda, o que pode ser feito? As dissonâncias expostas nas redes sociais não tradicionais são demarcadas e percebidas com surpresa e estupefação – indignação já é puro cinismo – e não como um ponto de inflexão.
Vejamos o caso das eleições desse final de semana. Acompanhamos a elaboração das listas de assinaturas de intelectuais, artistas e musicistas, os fatídicos e sem importância abaixo-assinados na defesa da democracia e a favor do voto útil em alguém. Gente que se encontra bem legitimada no meio e que angariou altos rendimentos através da exposição nas mídias tradicionais. Mas não é de qualquer candidatura que falamos, mas sim, daquelas remetidas ao espectro das esquerdas. Tal opção se qualifica por exibir-se como a mais preocupada com a manutenção da democracia e com a erradicação do que haja de ruim na sociedade. Quanto amor nesses coraçõezinhos! Quanto desapego em prol dos mais desfavorecidos!
Tais pessoas bem nascidas justificam as suas escolhas por verem longe e estarem do lado certo, do ponto de vista moral: o bem o e mal fazem parte desses discursos. O importante a notar é que são excluídos todos os que pensam diferente por conta de serem ignorantes e não sábios como os bem nascidos, chamados de aristocratas no passado recente.
Intelectuais engajados e que fazem militância nos seus campos de domínio quase sempre legitimados por títulos. Trabalham nas universidades públicas e não são imparciais em relação aos seus vínculos. Militam na sua área de conhecimento sem preocupação alguma com neutralidade. Artistas que pouco ou nada conhecem sobre política e que pregam para a sua audiência, entendendo que pensam do mesmo modo que eles: estariam certos se presumissem o mesmo nível de ignorância.
Esses posicionamentos, do modo como são feitos, privam o conjunto dos eleitores das diferenças havidas entre eles e deixam passar um recado incômodo para alguns, especialmente por se sentirem alijados dessa patota cuja vida está tão ganha que podem se dar ao trabalho de salvar os ignorantes que estão nas profundezas da caverna.
A prepotência desses indivíduos somente aumenta o coro daqueles que experimentam a sensação de que o pensamento é uma habilidade para poucos e que se sentem ressentidos por não poderem manifestar as suas opiniões. Arte, cultura e pensamento são meios para que se aumente a distância em relação aqueles que não sabem se comportar à mesa.
Esse povo toma uma lavada após a outra e a elite ainda finge surpresa quando aparece algum candidato que tenta falar como essa galera. Ideologia por aqui é mais um sintoma do nojinho da elite pelo povo sem grana, sem educação e ainda por cima com religiões fora do mainstream. Artistas, escritores e intelectuais são os garotos propaganda do capitalismo woke: o melhor a fazer é não contar com eles jamais.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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