
Uma boa maneira de conceber o trabalho de pesquisa em história é ter em mente uma escavação profunda em que se possa contemplar uma parede e nela se consegue observar as diferentes sedimentações e as camadas sucessivas de segmentos. É claro que estamos próximos de uma história geológica, mas também é possível que se intua que o passado é um resultado é desse acúmulo. Essa imagem, quando transposta para a história, do ponto de vista daquela que fazemos quando queremos nos aproximar de um evento que tenha se dado num passado remoto, fornece-nos um bom amparo e representa o que de fato acontece.
E em se tratando do movimento de se aproximar do que se passou, é válido que joguemos com a recuperação do que pode se saber quando da ocorrência do tal evento, bem como da recepção que se construiu sobre ele. E é exatamente aqui que começa a formação das camadas que se sucedem, o que o historiador Capistrano de Abreu aludia como sendo as borras que se acumulam, como aquelas das muito usadas xícaras de café. É evidente que nem tudo o que buscamos compreender oferece de maneira evidente toda essa sorte de repercussão, o que torna a pesquisa mais interessante na direção da investigação do que aquilo relacionado ao objeto que se estuda. Contudo, algumas investidas parecem quase que prontas para o nosso contato e recuperação dos segmentos que fiz alusão e que se amontoam uns sobre os outros. E isso ocorre quando se tem em vista uma situação que tenha contado com legitimação da espessura histórica, ou seja, que tenha alcançado uma recepção longeva.
Esse é o caso de um livro, não qualquer um, muito pelo contrário. Estamos nos referindo aqui à Utopia, escrita por Thomas More e publicada primeiramente em 1516. Não pretendo aqui retomar do que essa obra tratava, e essa opção já é propiciada pelo fato de ser um livro que se conhece pelo título: More concebeu um neologismo que se configurou em uma expressão muita mais conhecida do que ele próprio e, por conta disso, assumiu uma vida própria que não para de ganhar outros contornos conforme o presente que se serve dela vai se modificando. Nesse sentido, eu sugiro aqui um ponto de partida do que seria uma representação do exercício prático da pesquisa em história: conhecer o que for possível sobre a vida de Thomas More (1478-1535), isto é, ter em mente onde nasceu, onde fez os seus estudos, com quem privou relações e que desempenho profissional veio a realizar. Note-se que algumas dessas perguntas já alcançam a sua razão de ser por intermédio do que nos chega através da recepção e do acúmulo de informações que vem coladas como se fossem pertencentes ao que ainda sequer nos detivemos. Ter sido o autor dessa obra publicada no ano que apontamos já cria uma situação em que se pressupõe e já se toma como certo que ele devesse ter estudado, granjeado uma sociabilidade intelectual bem como ter realizado um desempenho profissional digno de nota e menção. E veja que ainda nem chegamos ao momento de se deter nas alusões e associações propiciadas pelo conceito de utopia, que ele, Thomas More, concebeu.
Resta introduzir que o autor foi secretário de Henrique VIII (1509-1547), o monarca britânico responsável pelo rompimento com o Vaticano e com a fundação da Igreja Anglicana, fato que identificamos como pertencente às Reformas Religiosas. Sabemos também que More manteve-se fiel ao catolicismo e que se indispôs com o monarca a ponto de ser condenado à morte por decapitação. Também temos em mente que a obra foi primeiramente escrita e publicada em latim e que a tradução para o inglês veio a acontecer após a morte do autor, num contexto então reformista: será que a tradução em si veio a estabelecer um escrito que mantivesse ligações com as expectativas desse acalentado contexto?
O próprio Thomas More veio a contribuir para a multiplicidade de significados e sentidos quando faz alusão na introdução ao seu livro a personagens reais que fizeram parte de seu círculo de proximidade quanto a outros, imaginários. Diga-se que a fonte principal do enredo é um personagem de ficção que se liga à história por meio da verossimilhança, uma vez que tinha participado das grandes navegações e que, por isso, alcançou a ilha de Utopia da qual perdeu a localização. Ficamos então sem saber como retornar a ela, o que nos lembra das alusões de Carl Sagan ao dragão na garagem.
Um poema na abertura da obra confunde as nossas expectativas. Além de cunhar a palavra Utopia (não lugar), More nos brinda com uma outra expressão: eutopia (um bom lugar). Vejam vocês que nem sequer saímos das menções aos instantes próximos da publicação da história. E o que dizer sobre as fontes do autor, ou sobre as obras que tenham sido mencionadas como próximas de seu contato quando da realização da Utopia? Luciano de Samósata (c.a. 125-181), satirista latino e continuador aplicado da ironia socrática, era uma das recorrências de leitura de Thomas More. Pode haver a expectativa por um aprendizado que se dê por meio do contraste como o que supomos bem saber e conhecer, e que na obra, pode ganha o perfil da sátira.
Das alusões futuras ao livro nos deparamos com o entendimento de que tenha sido um romance filosófico (no Iluminismo) ou como fundador do socialismo por Lênin, mas nada que predisponha a nossa leitura para o riso ou o escárnio. E o que se dirá da afinidade de Thomas More com o teatro e do quanto devemos o desempenho dos personagens à concepção primeira de que estivessem em cena e no palco? E se, ao final dessa recuperação introdutória, permanece a sensação de que imergimos num oceano de dúvidas, resta dizer que é exatamente aqui que nos deparamos com o que mais nos atrai no trabalho de pesquisa em história.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

