Outsider

A transfiguração do pecado


É bastante conhecida a afirmação de Leopold von Ranke de que todas as eras estão à mesma distância de Deus. Com ela, o fundador da ciência histórica moderna se afastava da crença hegeliana no progresso da humanidade. Não há razões nem quaisquer evidências de que o homem do século XIX tenha sido melhor ou pior do que o homem do século XIII, assim como não há qualquer indício razoável de que, na média, sejamos melhores ou piores que os homens e as mulheres do passado, seja ele tão longínquo quanto se queira. Evitemos, portanto, o progressismo e seu irmão amargurado, o decadentismo saudosista, que só consegue enxergar retrocessos morais para onde quer que olhe. Isto posto, nas linhas que se seguem, pretendo delinear a mutação que a concepção de pecado sofreu nos últimos tempos, identificando os beneficiados por tal mudança – o que, de modo algum, se confunde com a tarefa do pregador ingênuo, que se limita à exaltação do retorno à pretensa “virtude dos antigos”. Minhas reflexões nunca contêm moralina.

No final do século XV, Hieronymus Bosch pintou um tampo de mesa onde retratou os sete pecados capitais um ao lado do outro, formando um círculo em cujo centro se nota Jesus chagado e a frase “cave cave deus videt” (“cuidado, cuidado, o Senhor vê”) – sentença duplamente significativa, já que o todo da composição parece formar um olho, do qual Cristo seria a pupila. Ao tratar pictoricamente do tema, Bosch se inscrevia numa tradição milenar de reflexão sobre tais pecados, iniciada com o monge turco Evágrio Pôntico (séc. IV) e sistematizada por santo Tomás de Aquino, já no auge da Idade Média.

No cristianismo, o pecado pode ser pensado em três chaves: o original, o pessoal e o capital. O pecado original foi a primeira falta de nossa espécie, perpetrada por Adão e Eva. Sua consequência foi a mudança de status do ser humano, que daí em diante sucumbiria a uma condição decaída, cujas marcas distintivas seriam a mortalidade corporal e nossa tendência indelével ao mal. Os pecados pessoais são as transgressões concretas de cada indivíduo. Os pecados capitais, por sua vez, não são propriamente faltas, mas determinadas propensões a estas. Constituem certa abertura a pensamentos, palavras, atos e omissões contrários à vontade do Criador.

Da mesma maneira que uma pessoa com baixa imunidade tende a ficar doente mais frequentemente do que uma pessoa com a taxa ideal de leucócitos, alguém que padece de um dos pecados capitais tende a cometer mais pecados de um determinado tipo do que alguém que não padeça do mesmo pecado capital. Nesse sentido, os pecados capitais são doenças da psique que predispõem o indivíduo a certos exageros que invariavelmente dificultam a consecução da felicidade. Quer chamemos os pecados capitais por seu nome próprio ou não – e quer acreditemos ou não em suas implicações teológicas -, é inegável que a reflexão a respeito dessas enfermidades do espírito constitui um verdadeiro tesouro antropológico, nos fornecendo um valioso instrumento de autoconhecimento e de reforma (no sentido não babaca dos termos).

Que rabino, sábio chinês, guru hindu ou psicanalista – para, obviamente, fugir a exemplos cristãos – recomendaria a alguém que vivesse para os prazeres da mesa (gula)? Qual incentivaria o sexo como motivação principal da existência (luxúria)? Qual defenderia a procrastinação como sendo desejável (preguiça)? Qual não identificaria no exagerado apego a bens materiais um problema (avareza)? Qual consideraria a postura nervosa e impaciente como adequada (ira)? Qual consideraria apropriado se desejar o mal do outro ao invés de se procurar o próprio bem (inveja)? Qual diria ser “saudável” se ter uma imagem distorcida, aumentada, de si mesmo (orgulho)?

No entanto, desde o início da Modernidade a noção de pecado vem, gradualmente, perdendo seu peso. Isso se dá, primeiramente, pelo pronunciado anticlericalismo que deu a tônica dos último séculos. Eis o silogismo modernoso: o pecado é invenção do cristianismo; nos libertamos do cristianismo; logo, devemos nos libertar da noção de pecado. Como diz Nietzsche: se matamos a tarântula, por que continuaríamos bebendo seu veneno?

Além disso, nossa época é fortemente marcada pela rejeição da metafísica essencialista, segundo a qual as coisas teriam uma natureza própria, que precisariam seguir um determinado caminho para se realizar plenamente. Na época em que sustentávamos a existência de uma natureza humana, dela derivávamos racionalmente algumas regras de conduta de cuja observância dependeria sua realização. Contudo, a partir do momento em que pusemos em xeque a noção de essência humana, todas as regras se esboroaram. Sem natureza não há mais meta a ser alcançada. Sem meta a ser alcançada não há mais certo ou errado. Não havendo mais certo ou errado, tudo vira uma questão de intensidade (cf. meu artigo A era das experiências, do qual este pode ser considerado uma continuação).

Convencido de que não há uma “receita” para viver, o homem moderno – e principalmente o contemporâneo – começou a se focar na intensidade de suas experiências, entendendo que, em princípio, nada é errado ou digno de ser evitado: o único pecado é não sermos intensos naquilo que fazemos. Verdadeiro processo de libertação? Claro que não. Assim que o homem parou de levar a sério as “doenças do espírito” reconhecidas, de um modo ou de outro, pelos sábios de todos tempos e lugares, seus inimigos deram o bote.

O mais voraz deles é a publicidade. A publicidade nada seria se não pudesse apelar para nossa gula (comidas irresistíveis), nossa luxúria (pessoas atraentes vendendo de tudo, inclusive a si próprias), nossa preguiça (eletrodomésticos facilitadores, carros confortáveis, destinos paradisíacos) e nossa avareza (investimentos lucrosos e seguros, garantias para a velhice). A polarização política doentia e o terrorismo, por sua vez, nada seriam se não pudessem apelar para nossa ira. As ideologias igualitárias, por fim, nada seriam se não pudessem apelar para nossa inveja. E o que seria de todos os demônios citados se não inflassem nosso orgulho, nos dizendo que merecemos ter tal ou qual bem de consumo (no caso da publicidade), ou que nosso país, nosso mundo ou a salvação universal depende de nós (como no caso do sectarismo político e religioso)? De fato, o orgulho é o avesso da graça: enquanto esta abre as portas do céu, aquele escancara os portões do inferno.

Voltando para a afirmação de Ranke, não se trata de defender que o homem contemporâneo é mais depravado ou mais doente do que os homens de outras épocas. Uma tal comparação é impossível de ser realizada em bases minimamente confiáveis. Entretanto, não se trata tampouco de abraçar um “mesmismo” histórico. Se, por um lado, me parece óbvio que o ser humano sempre chafurdou nos pecados, por outro lado não me parece menos óbvio que assistimos ocorrer, diante de nossos olhos, algo nunca antes visto: o milagre da transfiguração do pecado em virtude. Sempre pecamos. Entretanto, se no passado reconhecíamos nossos erros enquanto tais, hoje isso nos é impensável. Talvez sejamos frágeis demais para tanto. As consequências desse “milagre” e de nossa fragilidade só os homens do futuro as conhecerão.

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Sobre o autor

Ricardo Mantovani

Pós-doutorando em Filosofia pelo LABÔ/PUC-SP, licenciado, bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Especialista em Filosofia da Religião e Filosofia Política, coordenador e professor do curso de pós-graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI, coordenador do Núcleo de Apologética e Ateísmo do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.