Outsider

Duas notas de um herege


Aproveito o aniversário de um ano desta coluna para escrever sobre duas coisas que há muito tempo quero compartilhar. Inicio o texto sem muita convicção de que, no final, formará um todo coeso. Se esse não for o caso, peço a complacência dos leitores, torcendo para que vocês possam ao menos se divertir com as lembranças e as reclamações de um quarentão.

Final dos anos 90, São Paulo, SP. Havia um certo clima apocalíptico no ar. Filmes como Matrix e Clube da Luta pareciam anunciar que o fim da sociedade estava próximo – pelo menos para nós que então éramos adolescentes. Conheci uma menina que ficou com tanto medo do Bug do Milênio que, na queima de fogos de 1999 para 2000, teve uma crise de nervos da qual demorou uma década para se curar. Eu, por minha vez, gostava da ideia do fim. Gnóstico até a alma, achava que o mundo era uma coisa boa de acabar.

Embebido em filosofia live fast and die young, me vestia de maneira alternativa. Antes que me peçam fotos, declaro que não tenho registros dessa época. As câmeras eram muito raras em comparação aos dias atuais e, de qualquer modo, eu era “mau” demais para posar para fotos. Meio gótico, meio cyberpunk, me arrumava para chamar atenção. Como disse certa vez um artista da época, não gostava de sair de casa sem que quem me visse, dissesse: “puxa, ele tem problema!”.

E é aqui que essa primeira memória acaba e que toma forma uma primeira reclamação. Desde os anos 1960, adolescentes sempre foram extravagantes em alguma medida. Diria ridículos mesmo. Então, por que me irrito quando vejo os ridículos de hoje? Hipocrisia de um cara que foi se tornando cada vez mais conservador, recatado e do lar? Já suspeitei disso, mas hoje tenho certeza de que o motivo é outro.

A bem da verdade, o motivo da minha irritação não tem nada de hipócrita. Me irrito com os jovens de hoje justamente porque sua ousadia é, na realidade, uma não ousadia. Eles não se enfeiam porque querem ser malfalados, tidos como problemáticos ou algo que o valha, mas sim porque querem que todos os aceitem “do jeito que são”. Não querem ser outsiders. Querem apenas que você “ponha a mão na sua consciência” e note que, se você os acha ridículos, é porque no fundo é preconceituoso. Suas estranhezas não são mais as trombetas de um apocalipse, mas as flautas broxas que anunciam a vinda do reino de algodão-doce de suas ideologias identitárias. Seus penduricalhos e cabelos não dizem mais “o mundo é um lugar cruel no qual estou só de passagem”, mas sim “tenho orgulho de ser X, Y, Z…”. Jovens chatos! Chatos e dodóis… Não aguentariam um dia letivo numa escola do século XX sem pedir para os papais virem buscar no intervalo.

O segundo “causo” que quero compartilhar se passou um pouco depois, no início dos anos 2000 na USP, instituição em que cursei Filosofia. Não estou cuspindo no prato em que comi. Aprendi muitas coisas nessa época, por causa da USP e apesar da USP. Hoje me focarei nas más lembranças.

Quando entrei na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) acreditava, na minha inocência de menino da zona leste, que estava sendo aceito numa irmandade de grandes espíritos. Cria piamente que lá encontraria defensores da liberdade de pensamento e amantes do conhecimento. É claro que o sonho não durou mais que poucas semanas.

Abstraindo o fato de que quase tive que sair no soco com alguns veteranos já no dia da matrícula simplesmente porque não quis me sujeitar ao trote (o roqueiro em mim não se submeteria a quem “ama Caetano, Gil e Chico”), fui para o primeiro dia de aula cheio de esperanças. Logo na primeira noite, alguns membros de centros acadêmicos entraram na sala, convidando os calouros para participarem das organizações estudantis, “porque a faculdade não é só estudar, mas também participar ativamente da política, blábláblá…”. Bem, o fato é que eles me convenceram a ir, dias depois, a uma reunião.

Lá chegando, notei que se tratava de uma “plenária com indicativo de greve”, verdadeira tara dos uspianos. Lembro-me de um rapaz com barba e cabelos sujos (tipo onipresente naquelas paragens) gritando ao microfone, sabe-se lá por que, por uma paralisação imediata. Para o estudante médio das universidades públicas e, em especial, para o estudante médio da USP, o motivo da paralização é só um pretexto. SEMPRE E EM TODOS OS CASOS.

Contudo, eu ainda não sabia disso. Cândido, pedi a palavra e expliquei que não via como uma paralisação da faculdade de Filosofia poderia ter qualquer serventia para o povo da Guatemala (sim, agora me lembro, a grande ideia era paralisarmos a faculdade em apoio a algo que estava acontecendo na Guatemala!). Imediatamente, uma moça raivosa tirou o microfone das minhas mãos, enquanto os demais me vaiavam. Ali notei que todos éramos iguais, ainda que uns fossem mais iguais que outros.

Nos anos seguintes, enquanto estudava mais do que todos eles juntos, os vi invadir (“invadir” e não “ocupar”, como o eufemismo esquerdista sugere) a reitoria algumas vezes. Vi essas pessoas destruindo computadores e jogando vinho nas cortinas somente para torná-las irrecuperáveis, transando e usando drogas nos sofás pagos com os impostos daqueles dos quais eles diziam ser os porta-vozes. Vi políticos saindo desses movimentos e os vi fundando partidos. Eu sei, parece que nasci “há dez mil anos atrás”.

Já no mestrado, voltei a sentir na pele o seu ódio do bem. Por conta de uma exigência de estágio supervisionado da CAPES, assumi a responsabilidade de apresentar para a turma do primeiro ano de Filosofia uma série de seminários introdutórios. Entretanto, durante o fatídico semestre, os “estudantes” conseguiram paralisar mais uma vez a faculdade – sempre com o apoio de uns tantos professores inescrupulosos. Sabe como eles conseguem isso? Fazendo votações diárias, nos horários mais estapafúrdios, até conseguirem “passar” a greve e, claro, negando-se a fazer qualquer nova votação assim que o resultado por eles desejado fosse alcançado: “fazer nova votação pra quê? A greve já foi decidida por uma assembleia soberana de alunos!”.

Pois bem. Tendo decidido pela greve, os “estudantes” invadiram minha aula, se colocaram entre mim e os primeiranistas e decretaram que aquela disciplina estava suspensa até segunda ordem. Frustrado, esperei os grevistas saírem da sala e disse aos bravos alunos remanescentes que eu poderia continuar lhes ensinando no café. Uns dez aceitaram a proposta. Pegamos nossas coisas e nos dirigimos para o exterior do prédio. Contudo, ainda no corredor, dois grevistas, no melhor estilo KGB, suspeitaram de nosso grupo e começaram a nos seguir à distância. E eis que, para minha surpresa (pero no mucho), depois de já acomodados no café e reabrindo nossas anotações, meus alunos e eu fomos abordados pelos jagunços. Foi quando um deles me falou algo emblemático: você não está ensinando nada não, né?! Ao que, cinicamente (e fervendo por dentro) respondi: não, jamais ousaria ensinar algo numa faculdade! Temendo o pior, meus alunos intervieram e falaram que todos já estávamos de saída. Naquele dia, ninguém aprenderia nada de Filosofia. Os grevistas tinham, mais uma vez, conseguido o que queriam. Aliás, tinham conseguido a ÚNICA coisa que até hoje querem: que ninguém aprenda nem ensine nada para além de sua ideologia vagabunda.

O que concluir de tudo isso? Sei lá… Talvez que jovens nunca sabem o que fazem e que, por isso, não se deve lhes dar poder, a menos que se queira que sejam massa de manobra de “causas nobres”. Talvez que a USP seja verdadeiramente a vanguarda do Brasil, já que o jovem ideologizado, identitário e babaca que hoje se encontra em todos os lugares já se fazia presente naquela Universidade há mais de 20 anos. Talvez que eu esteja ficando velho, saudosista e ranzinza (não acredito nesta hipótese, e só a formulo pelo efeito cômico e para sinalizar que também sou autocrítico, o que, aliás, “pega bem”). Enfim, o que escrevi está escrito.

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Sobre o autor

Ricardo Mantovani

Pós-doutorando em Filosofia pelo LABÔ/PUC-SP, licenciado, bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Especialista em Filosofia da Religião e Filosofia Política, coordenador e professor do curso de pós-graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI, coordenador do Núcleo de Apologética e Ateísmo do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.