
Tenho o prazer de publicar, mensalmente, a coluna OUTSIDER, cuja existência se deve ao encorajamento de Andréa Kogan e Luiz Felipe Pondé. Por vezes oferecerei ao leitor textos longos e informativos, por vezes textos curtos e provocativos, além dos inúmeros tons de cinza que há entre esses extremos. Que não se prendam à forma. A única constância aqui será a sinceridade do autor: sinceridade que só se alcança quando se é um outsider.
Passado onírico, presente eufórico, futuro utópico. Eis os três refúgios acessíveis ao ser temporal que somos: eis os elementos da fuga ternária do homem. E como todas as manifestações culturais não são senão a materialização de determinadas possibilidades humanas, é natural que, sob diferentes roupagens, tais fugas se façam presentes onde quer que vasculhemos. Hoje identificarei como essa tríplice fuga da realidade toma forma no catolicismo, certo de que também se faz presente em outras cosmovisões.
O refúgio num passado onírico é próprio dos tradicionalistas. Contudo, antes de seguirmos, é importante que algo fique claro. Todo verdadeiro católico respeita a tradição da Igreja. Uma das principais características distintivas dos católicos em relação aos evangélicos é que, enquanto estes abraçam o famoso sola scriptura, aqueles têm no Magistério e na Tradição outras duas fontes de autoridade. Isto significa, por exemplo, que os católicos devotam às decisões conciliares e às teses passadas adiante pelos Santos Padres a mesma fidelidade que devotam à Bíblia. Aliás, se deve notar que sequer teríamos a Bíblia se não fosse a Tradição a nos dizer que livros deveriam compô-la, já que tal “índice” não se encontra em nenhum deles. Mas isso é assunto para um outro texto…
Isto dito, é importante que o público leigo entenda que a expressão “tradicionalista” não alveja os católicos obedientes ao Magistério e à Tradição, mas, ao contrário, aqueles que não lhes são obedientes. A “tradição” do tradicionalista não é a da Igreja, mas sim a sonhada por ele próprio. Herético, ele escolhe o que deve e o que não deve ser aceito, tingindo os fragmentos do passado que foram dignos de entrar por sua “porta estreita” com as cores de uma Idade Média fetichizada. Via de regra, o tradicionalista acredita que a história do pensamento terminou em Tomás de Aquino, o qual ele teria muito prazer em ler, fantasiado de guerreiro Cruzado, no lombo de um cavalo, rumo a Jerusalém. Eles lidam com seu mal-estar com a Modernidade jogando todos seus ganhos e aspectos positivos no lixo. Seus demônios já não são Belial, Asmodeu e Azazel, mas Descartes, Darwin e o Vaticano II. Seu delírio vai tão longe que, certa vez, um deles me disse que nunca abriria mão de frequentar missas “rezadas no idioma falado por Jesus e pelos apóstolos” – que, ainda de acordo com o gênio em questão, seria o latim. Haja chapéu de alumínio! (Cf. Ecclesia Dei, São João Paulo II).
O refúgio num presente eufórico é característico dos membros extremados da Renovação Carismática. Surgida nos Estados Unidos em plenos anos 1960, a RC trouxe para o ambiente católico uma espiritualidade de tipo pentecostal. Que não se pense, entretanto, que pretendo atacar o movimento ou colocar em questão a sinceridade de seus adeptos. Na realidade, quero somente sublinhar certas desmedidas que, não raro, identifico em sua religiosidade – exageradamente focada, a meu ver, no sentimentalismo.
Uma rápida análise dos atemporais cantos gregorianos revela que neles se trata, sobretudo, de confessar o conteúdo da fé católica. Eles descrevem o drama da salvação, informando e colocando o cantor/ouvinte no seu devido lugar de temor e tremor. Puer Natus est Nobis narra o Advento. Dies Irae narra o Apocalipse. E por aí vai. Nem mesmo os hinos Pange Lingua e Veni Creator Spiritus, que começam, respectivamente, com um incentivo (“cante”) e com um pedido (“venha”), abrem qualquer espaço para o surgimento de um eu-lírico.
Por outro lado, as letras de inúmeras músicas da Renovação Carismática não fazem senão expressar as idiossincrasias de indivíduos emocionados. Nelas, o eu-lírico ou está com medo de “noites traiçoeiras”, ou está animado por saber que em breve vai “queimar de novo”, ou qualquer coisa que o valha. Sinceramente, não vejo como esse enfoque nos sentimentos pode nos ajudar a realizar a máxima de São João Batista expressa na frase: “é necessário que Ele cresça e que eu diminua”. Se perdemos a Deus por nos colocarmos no centro de tudo, Seu reencontro pressupõe o movimento contrário. Nada (deveria ser) mais óbvio que isso.
Deus é vislumbrado no silêncio das paixões. Mas como pedir o silêncio das paixões se nem o mero silêncio é possível? De fato, em muitas comunidades da RC, a quietude parece ser um pecado a ser evitado a todo custo. É música – e no volume máximo – do começo ao fim. Isso quando algum abençoado, logo após a comunhão, não puxa uma “oração em línguas”. Finalmente, tudo é coroado com suor, desmaios e lágrimas: signos iniludíveis do arrebatamento interno dos envolvidos. Eis a missa transformada num evento sinestésico projetado para “lavar a alma” do fiel. (Cf. Introdução ao Espírito da Liturgia, Cardeal Joseph Ratzinger).
Por fim, a fuga num futuro utópico é, como se sabe, apanágio dos exageros cometidos em nome da Teologia da Libertação. Os membros desviados da TL nada mais são que marxistas (portanto, ateus) que se utilizam da Igreja como caixa de ressonância para a propagação de suas pautas. Para eles, Jesus é muito mais do que o Filho de Deus: é um revolucionário. Defendem que o pecado não nasce no coração do ser humano, sendo apenas o resultado de estruturas sociais injustas. Reclamam que a Igreja não passa de uma estrutura arcaica, com uma hierarquia engessada e opressiva. Sustentam que Cristo não multiplicou os pães, tendo apenas os “partilhado”. Em vez de verem na História uma pedagogia divina e/ou a consumação do sacrifício crístico, nela só identificam a famigerada luta de classes entre o rico demoníaco e o pobre santificado apenas por ser pobre. Não têm qualquer esperança na Parusia, acreditando que o Paraíso precisa ser construído por nós mesmos, custe o que custar – e, precisamente nesse sentido, se refugiam imaginariamente numa sociedade futura, tão Justa quanto Humana. Ninrode manda lembranças… (Cf. Instrução Libertatis Nuntius, Cardeal Joseph Ratzinger).
A título de exortação final, faço eco à sábia recomendação de sobriedade e vigilância, já que a tentação da fuga ternária anda em derredor, como o leão que ruge procurando a quem devorar. Evitemos nos fixar no passado como a esposa de Ló, sucumbir ao presente como o filho pródigo e acreditar demais em nossas forças para modelar o futuro como o já citado neto de Cam. Ser, agora, uma corda tencionada entre o que já veio e o que há de vir: eis o único modo de se instalar conscientemente no seio da realidade, a única maneira de notar que o Reino de Deus já está entre nós.

