Revista Laboratório Temática – A imagem de Deus: Religião, História e Arte

Irmandade de S. Benedito: a edificação do templo e sua pintura interna realizada por Cid Serra Negra

Resumo

O presente texto tem como objetivo apresentar brevemente o histórico da Irmandade de São Benedito da cidade de Serra Negra/SP, que resultou na edificação da sua igreja, adornada internamente pelo artista serrano Cid de Abreu, também conhecido como Cid Serra Negra. Para o estudo preliminar, foi necessário contemplar alguns aspectos do desenvolvimento do município serrano e sua questão escravocrata.

Palavras-chave: Irmandade de São Benedito, Igreja de São Benedito, Cid de Abreu, Serra Negra

Introdução

“São Benedito, o seu nome tem sido sempre um presságio de ternura!”

Ao se pensar na constituição de uma irmandade religiosa e a edificação de um templo em louvor a um santo católico, criou-se a possibilidade de pesquisar o contexto em que estava inserida. Os dados foram surgindo ao longo dos levantamentos, o que permitiu traçar, mesmo que de forma preliminar, uma versão da sua origem e seu desdobramento.

Antes de abordar especificamente a criação da irmandade, a construção e pintura interna da Igreja de São Benedito, parece ser necessário apresentar alguns registros sobre a formação de Serra Negra/SP e a escravidão na cidade. Serra Negra começou a se constituir no final do século XVIII e fazia parte de uma velha rota bandeirante denominada “Rumo do Pirapitinguy” [1], no caminho entre São Paulo e Goiás.

O núcleo do pequeno povoado foi formado em torno de uma capela em honra a Nossa Senhora do Rosário, que, em 1828, foi elevada à categoria de Capela Curada[2], ano este designado como o de sua fundação. A princípio, a economia estava vinculada à plantação de cana-de-açúcar, para a fabricação de aguardente e a agricultura de subsistência.

Uma capela representava, nessa época – como, aliás, até hoje – o centro obrigatório da sociedade rural, onde, nas missas dominicais, nas novenas festivas e nos terços vespertinos, se fraternizavam pela mesma crença os moradores de toda a redondeza.

Escolheu-se para tal uma planície na fralda da serra Negra, distante mais ou menos seis quilômetros das Três Barras e onde já havia duas ou três casas de construção primitiva, cobertas de sapê. (Siqueira, 1934, p. 117).

Para Hildebrando Siqueira (1934), Serra Negra foi se formando lentamente, ao sabor das circunstâncias, tendo como principal causador do difícil desenvolvimento o território montanhoso, com acidentes topográficos que tornavam os caminhos quase inacessíveis, além de florestas, serras e altitude de 1.000 metros acima do nível do mar. Elevou-se a Freguesia em 1841, a Vila em 1859, a Cidade em 1885 e a Comarca em 1890, seguindo a evolução dos povoamentos do interior paulista, como afirmou Antonio Cândido de Melo e Souza (2003), em sua obra Os Parceiros do Rio Bonito:

Estas considerações adquirem maior clareza quando encaramos a evolução por que passaram, frequentemente, as cidades paulistas. No início, moradores segregados. Em seguida, ereção de capela, em patrimônio doado, que atraía lojas e depois algumas casas. Daí, passava a freguesia, já com o núcleo de população esboçado. O povoado subia a vila, chegando afinal a cidade. Nestes casos, a população rural ia-se ampliando na periferia, onde apareciam novos bairros, que passavam a vila, e assim sucessivamente, sertão adentro […] (p. 100).

Segundo os levantamentos apresentados por Azevedo Marques (1878), em 1874, a população da Vila de Serra Negra era composta de 4.980 habitantes, sendo: 4.756 homens livres e 224 escravos. A vila possuía 84 fogos[3] e um único edifício público: a Igreja Matriz. No Relatório da Província de São Paulo (1888), encontram-se dados que demonstram um salto significativo no decorrer de dez anos, quando a população quase dobrou, chegando, em 1886, a 9.620 habitantes, 472 dos quais eram escravos. A cidade contava com quatro edifícios, a Igreja Matriz e a Igreja de São Benedito, a Casa de Câmara e Cadeia, um pequeno teatro, além das casas térreas e três sobrados.

Nesse período, o município estava direcionando sua produção agrícola para a cafeicultura, com suas terras consideradas apropriadas para tal cultivo. Registraram-se 97 fazendeiros, dentre eles, 86 com atividades direcionadas à rubiácea e 11 desenvolvendo o plantio de cana-de-açúcar (Almanak da Província de São Paulo, 1873).

Apesar do pequeno perímetro urbano, constituíram-se novos estabelecimentos comerciais, tanto que, através da Resolução nº 19 de 16 de março de 1876, regulamentou-se o Mercado da Vila de Serra Negra, estipulando o horário de funcionamento, alugueres, tipo de produto a ser comercializado, multas e atribuições do administrador. Com essas transformações, com o aumento do número de habitantes, novos postos de comércio, edificações de prédios públicos e residências, foi necessário aprovar diretrizes de convivência, e Serra Negra passou a ser regulada por Códigos de Posturas.

As Posturas (PLÁCIDO E SILVA, 2001) designam as leis ou os decretos municipais instituídos em benefício de uma coletividade. Nelas, ao lado das normas de conduta a serem seguidas pelos munícipes, fixam-se penas e multas a serem impostas a todos os que se mostrem transgressores ou infratores dos preceitos ali instituídos.

José Roberto do Amaral Lapa (2008) apontou que“as posturas municipais constituem fonte primária fundamental para o estudo da urbanização do interior de São Paulo, identificando-se na maioria de suas disposições independentemente do tamanho da cidade” (p. 54).Acrescentou a importância desses documentos como instrumentos reguladores da vida urbana e afirmou ainda que foram produzidos e alterados de acordo com a evolução e transformação da cidade. Os artigos das Posturas contemplavam vários aspectos organizacionais das cidades, como normas de edificações, nivelamentos de ruas, segurança pública, preocupação com mananciais de águas, questões agrícolas, festas públicas e alguns eram especificamente dedicados aos escravos.

A informação mais antiga encontrada sobre Posturas em Serra Negra[4] data de 1863, na citação do livro Da Senzala à Colônia, da autora Emília Viotti da Costa (1998), abordando as apresentações de congadas realizadas pelos escravos serranos.

Estas considerações adquirem maior clareza quando encaramos a evolução por que passaram, frequentemente, as cidades paulistas. No início, moradores segregados. Em seguida, ereção de capela, em patrimônio doado, que atraía lojas e depois algumas casas. Daí, passava a freguesia, já com o núcleo de população esboçado. O povoado subia a vila, chegando afinal a cidade. Nestes casos, a população rural ia-se ampliando na periferia, onde apareciam novos bairros, que passavam a vila, e assim sucessivamente, sertão adentro […] (p. 100).

Levando em consideração a já mencionada população de pessoas escravizadas e um dispositivo regulamentador sobre as atividades de lazer, é possível afirmar que nesse período havia organização coletiva envolvendo os escravos de Serra Negra. Corrobora para isso que, nas Posturas posteriores, vários artigos foram dedicados às atividades que poderiam ser realizadas pelos escravos, e aquelas em desacordo com as orientações das normas tinham as penalidades previstas – assim como estava previsto que todo excesso praticado contra os escravizados, inclusive o físico, seria penalizado.

Art. 49 – Os donos de casas de jogos lícitos que consentirem nelas jogar escravos ou filhos de famílias sem consentimento de seus pais ou tutores, incorrerão na multa de 20$000.

Art. 53 – É proibido andarem com escravos com ferro ao pescoço ou nos pés pelas Ruas da cidade. O senhor que assim for encontrado será multado em 20$000, salvo o escravo estiver fugido.

Art. 54 – É proibido passarem com escravos amarrados ou algemados pelas Ruas da cidade, a não ser conduzido pela polícia. O infrator será multado em 20$000.

Art. 65 – Ninguém poderá comprar à escravos café, açúcar, aguardente ou qualquer cousa de valor, sem bilhete dos respectivos senhores ou administradores, sob pena de multa de 30$000 e oito dias de prisão.

Art. 66 – Nenhum negociante permitirá em sua casa ajuntamento de escravo por mais tempo do que o necessário para comprar ou vender, sob pena de multa de 10$000. (CÓDIGO DE POSTURAS, edição de 1886).

Irmandades religiosas

Apesar de várias restrições de sociabilidade envolvendo a população escravizada, uma atividade era reconhecida como legítima e até estimulada: as irmandades religiosas. De acordo com os levantamentos de Julita Scarano (1975), as confrarias e irmandades instalaram-se, no Brasil, a princípio no litoral, seguindo posteriormente para o interior. Consta que a primeira Irmandade do Rosário foi trazida pelos jesuítas e estabelecida nos primórdios de Piratininga, atribuída a sua criação a José de Anchieta. Elas foram constituídas tendo como modelo as existentes em Lisboa e foram adaptadas à realidade local. A organização administrativa contava com estatutos a serem seguidos. O associado era admitido, comprometendo-se a seguir as regras através de juramento, e a sua diretoria era eleita entre seus membros.

Fazer parte de uma irmandade era uma maneira de se integrar socialmente, pois, se não se estivesse vinculado a uma entidade deste tipo, o indivíduo estaria fora do convívio social e seria visto com desconfiança. Estar associado assegurava alguns direitos, como registro de nascimento, batismo e casamento. Essa afiliação proporcionava também alívio e despreocupação para com os rituais pós-morte, pois seus membros teriam garantido um local para serem enterrados e o fortalecimento para suas almas, com a encomenda dos corpos e as missas. Nas ordens mais abonadas, tinha-se o direito a quarenta missas, já as demais chegavam a vinte.

Um socorro financeiro e espiritual era estendido às viúvas e aos familiares dos associados. Muitas irmandades conseguiram acumular capital razoável, que incluía vários imóveis que eram alugados como uma forma de obtenção de renda ou cedidos em casos de necessidade de um irmão. A rede de assistência extrapolava limites, podendo um irmão de uma vila ser ajudado, se necessário, em outra, desde que pertencesse à mesma ordem religiosa. Aquelas que não conseguiam erigir sua própria igreja ou capela tinham permissão de ocupar os espaços laterais das matrizes, sendo que, em alguns casos, cobrava-se aluguel. Ao conseguir os fundos necessários e terminar as obras, mudavam-se para sua sede.

Com relação às irmandades de negros, Scarano (1975) apontou que a Irmandade do Rosário, em Diamantina, composta também por membros cativos, contava com a colaboração dos seus senhores para sua manutenção – o que provavelmente ocorria em outras localidades. A autora salientou ainda a importância dessas associações quanto à possibilidade de, nos ofícios religiosos, acontecer a reunião de negros de várias nações, algumas inclusive rivais. Havia também a possibilidade de integrar escravos de senhores diversos, que trabalhavam e moravam em locais diferentes. Tinha-se então, sob o mesmo teto, trabalhadores rurais e urbanos. O pertencimento proporcionava, em várias ocasiões, igualdade em relação ao branco, principalmente na deliberação e realização das festividades de santo padroeiro, participação nas procissões e nas comemorações. Mesmo com toda a influência da doutrina cristã, Scarano (1975) concluiu que “as confrarias serviam de veículo de transmissão de diversas tradições africanas que se conservaram pela frequência dos contados, pela conservação da língua e outras razões semelhantes” (p. 150).

Irmandade de São Benedito

Maria Inez Masaro Alves (2016), em sua pesquisa, relatou que, em Serra Negra, a fundação da Irmandade de São Benedito foi a primeira ocorrida na cidade, no ano de 1866. A autora descreveu que, ao analisar os livros de assentamentos, constatou que o registro inicial dos afiliados continha a listagem de cinquenta membros, três dos quais eram libertos e vinte eram escravos. Fato que corrobora as pesquisas realizadas por Scarano em Minas Gerais, quando discutiu não ser incomum as associações deste tipo terem entre seus membros pessoas livres, libertas e escravizadas, com sua manutenção dependente das anuidades pagas pelos associados, enquanto o trabalho braçal em benefício da congregação era realizado pelos escravos e libertos.

Segundo Benedita Gomes Rosa (2014), em 1873[5] já existia uma pequena igreja em homenagem ao Santo Padroeiro São Benedito. Ela estava localizada no topo de um morro próximo ao antigo prédio da cadeia[6], caracterizando a estrutura organizacional da associação, que, num breve espaço de tempo, levando em consideração as dificuldades do período, conseguiu erigir o santuário em sete anos. Em 13 de fevereiro de 1883, inaugurou-se o cemitério São Benedito próximo à igreja[7], permitindo aos associados, além de um ritual pós-morte, o sepultamento em solo sagrado.

Imagem 1 – Panorama de Serra Negra, 1908, cedida por Alcebíades Felix (acervo da autora)


Na Imagem 1, vê-se a área urbana da cidade com as duas ruas principais: Cel. Pedro Penteado, abaixo, e Sete de Setembro, com alguns sobrados. No lado esquerdo da ilustração, de frente à rua larga, localiza-se um sobrado construído pelo imigrante italiano Joseph Bruschini. Na mesma direção, um pouco acima, estão os imóveis que pertenceram à Irmandade de São Benedito. Em 1889, dois chafarizes foram construídos na cidade, a fim de auxiliar no abastecimento de água: um no largo da Matriz e o outro no largo da Igreja de São Benedito.

A edificação da Igreja de São Benedito

Com o desenvolvimento da cidade, após o direcionamento da atividade agrícola para a cafeicultura, houve um aumento populacional considerável, levando em conta, ainda, o fluxo imigratório. Em 1905, a cidade contava com 21.684 habitantes, dentre eles, inúmeros fazendeiros de café, dado que a produção da rubiácea estava em torno de 400.000 arrobas, segundo o Almanak Laemmert de 1906. O aumento de recursos circulantes justificava a criação de novos postos de serviços e de atividades comerciais na zona urbana. A conjuntura levou o poder público a entrar em contato com os dirigentes da Irmandade de São Benedito e propor a desapropriação dos seus imóveis, pois os mesmos localizavam-se em área central e privilegiada da cidade. As tratativas levaram à transferência do cemitério e à demolição da antiga igreja. A partir de 1910, iniciou-se uma nova etapa na trajetória da Irmandade de São Benedito, com a construção do novo templo, em um local denominado Alto dos Pinheiros[8].

As campanhas da comunidade serrana, juntamente com os associados da Irmandade, ocorriam frequente e incansavelmente, sempre visando a arrecadação de fundos para o término do templo religioso e para a sua manutenção.

Imagem 2 – Construção da Igreja de São Benedito (esquerda) e da Santa Casa de Misericórdia (direita), início da década de 1920. Fonte: Humberto Manzini (acervo da autora)


Anualmente, no dia 6 de janeiro, celebra-se a festa em louvor a São Benedito em Serra Negra; essa tradição sempre contou com a participação da população urbana e rural. Nesses eventos, o sacro e o profano dividem a mesma celebração: as missas, novenas, procissões, barracas, quermesses, leilões, conjuntos musicais e a participação, por muitos anos, da Congada de São Benedito, em apresentações no largo da igreja. As solenidades contam também com a cobertura da imprensa local, divulgando as cerimonias, atrações, solicitando prendas paras as barracas e leilões, como a festa ocorrida em 1954.

Pomposas solenidades na igreja do seu patrono S. Benedito

A população de nossa cidade prepara-se para comemorar com raro esplendor o transcurso das festas de Santa Efigênia e São Benedito, que este ano está despertando maior interesse para os devotos dos milagrosos santos.

Após uma série de cerimônias preparatórias, que tiveram início no dia 28 do mês findo, serão celebradas nos dias 5 e 6 de janeiro, na Igreja do alto da avenida, pomposas solenidades em sua homenagem, numa demonstração de edificante fervor pela sua infinita santidade.

São Benedito, o seu nome tem sido sempre um pressagio de ternura! Todos que tem recorrido à sua Santa proteção, conseguiram graças incríveis. Nas festas que se aproximam devemos recorrer, com muita fé, ao Santo dos humildes, exaltando o seu nome com a certeza do poder dos seus milagres.

Os trabalhos que se empenharam os diretores da Irmandade na execução do programa, darão lugar para que as festividades se realizem com o mais expressivo fervor de religiosidade e para que se verifique em todos os atos, elevado número de fiéis.

[…]

Dia 6, festa de São Benedito, às 5 horas, alvorada pela corporação musical e salva de 21 tiros. Às 7,30 horas, missa com comunhão geral. Às 10 horas, missa cantada, com pregação. Às 18 horas, desfilará a procissão conduzindo a imagem de São Benedito, pelo itinerário do costume. A entrada haverá sermão com benção solene do SS. Sacramento.

Nos dias das festas, após os atos litúrgicos, haverá leilões de prendas, cujos resultados reverterão em benefício dos festejos. Os atos externos serão abrilhantados pela corporação musical “Lira Serra Negra”. Na noite de 6 de janeiro, serão queimadas belíssimas peças de fogos de artifício, a cargo do hábil pirotécnico de Lindoia.

Os festejos e a diretoria da Irmandade pedem aos fiéis para enviarem prendas para os leilões, que, além de prestar o seu auxílio para as despesas da festa, concorrerá para o maior brilhantismo das mesmas. (O Serrano, 3/01/1954).

Segundo Rosa (2014), recordando as falas dos associados veteranos, as festas eram sempre muito concorridas e bem organizadas. Alguns festeiros, moradores dos bairros rurais, vinham especialmente para as novenas e ocupavam um lugar privilegiado nas procissões: carregavam o mastro à frente do andor, o qual era cercado por uma guirlanda de flores. A cortesia era justificada, pois esses senhores eram responsáveis pela manutenção das festas. Ela descreveu também a vestimenta da irmandade:

Uma opa branca até a altura dos joelhos sobreposta por uma capinha preta que, contornando o pescoço, chega aos cotovelos, identifica nas procissões o Irmão de São Benedito. Nas mãos o Irmão de São Benedito carrega uma vela protegida por uma redoma de vidro presa a uma haste grossa, que chega até o chão.

Imagem 3 – Procissão descendo a Av. Santos Pinto, 1923. Cedida por Nestor Leme (acervo da autora)


Na Imagem 3, vemos, ao fundo, a Igreja de São Benedito, no Alto dos Pinheiros; já à frente da procissão, dois Irmãos de São Benedito, devidamente trajados, seguram as velas protegidas. Ao fundo, veem-se os estandartes de mais duas irmandades.

Foram muitos anos de empenho da Irmandade de São Benedito, com o total apoio da comunidade serrana e órgãos públicos, para o término da construção de sua igreja. Parte de seu patrimônio provinha de doações deixadas em processos de inventário, sendo algumas em bens imóveis. Foi preciso vendê-los para custear a finalização da edificação do santuário, segundo a pesquisa realizada por Alves (2016). Ao longo dos anos, ocorreu um aumento significativo do número de colaboradores da Irmandade, o que possibilitou o acabamento primoroso do interior da Igreja. A preocupação com a ornamentação levou à criação de uma comissão que convidou o artista serrano Cid de Abreu para a realização da decoração interna, como relatou Rosa (2014):

Na década de 70 do século XX, a Equipe de Ouro, (formada por cidadãos serranos, não pertencentes à lista de irmãos, a nível de colaboração), assumiu a frente dos trabalhos e, com ajuda da população, realizou grande reforma interna da Igreja, com troca de piso, bancos, alguns altares, nichos, pintura e, (o) ponto alto da decoração ficou a cargo do inesquecível artista, orgulho de todos nós, Cid de Abreu, o “Cid Serra Negra” que deixou sua marca no teto, nas paredes, nos anjos flutuando ao redor do altar-mor, nas portas, na via sacra, expondo também imagens de santas, trazidas por ele da Europa […].

Imagem 4 – À esquerda: fachada da Igreja de São Benedito, década de 1930; ao centro, visão do interior; à direita, fachada atual (acervo da autora)


O artista Cid de Abreu

O serrano Cid de Abreu nasceu em 1924, período de mudanças em Serra Negra, quando fazendas foram desmembradas, tendo em vista a falência de seus proprietários e quando também houve a divisão de imóveis em vários quinhões, em decorrência dos processos de inventário e arrolamentos. Herdeiros passaram a possuir pequenos sítios, sendo que muitos foram adquiridos mais tarde por imigrantes italianos e seus descendentes, que haviam conseguido juntar capital suficiente para tornarem-se proprietários de terras, inclusive aqueles que haviam sido colonos. Diversificaram as lavouras, mas mantiveram como principal atividade o plantio, colheita e beneficiamento do café. Foi também nessa transição que se iniciaram as explorações das águas minerais, culminando na elevação da cidade a uma estância hidromineral paulista.

Imagem 5 – À esquerda, integrantes da comissão gestora das obras realizadas na Igreja de São Benedito. À direita, o artista Cid de Abreu. Década de 1970 (acervo da autora)


Os antepassados de Cid de Abreu integravam a elite de fazendeiros que perderam patrimônio. Por conta do novo contexto econômico de seus avós e de sua mãe, sua infância e a adolescência foram marcadas por restrições financeiras. Ainda jovem, foi acolhido pela família do médico Firmino Cavenaghi, para a qual trabalhou por muitos anos como cozinheiro.

Descrito por amigos como reservado e intuitivo desde criança, Cid passava parte de seu tempo livre visitando antigas sedes das fazendas serranas, buscando materiais que pudessem ser utilizados como objetos decorativos ou matéria-prima para as obras artísticas. Nessas oportunidades, teve acesso a antigas capelas rurais, observando detalhadamente o seu interior, as imagens de santos e os oratórios.

Como não houve oportunidade de ter uma educação artística formal, Cid estudou as obras de arte através de livros, geralmente em idioma francês. Inspirou-se ainda em seu cotidiano, dentro da diversidade das atividades desenvolvidas ao longo da vida, pois desde criança ajudou sua mãe no sustento da família. As variadas experiências pontuaram o ritmo de sua pintura; como, no início de carreira, não conseguira vender suas telas, muitas foram presenteadas. Outro fator importante sobre sua formação artística diz respeito à sua religiosidade, alicerçada na amizade com um padre que lhe transmitiu os conceitos cristãos. A partir desse novo referencial, sua obra ganhou novos contornos, sendo que parte de sua produção foi dedicada a temas religiosos, especialmente na representação de São Francisco, que constitui ¾ de suas obras[9].

No início da década de 1950, após contrair um empréstimo financeiro, realizou o sonho de viajar para Europa, visitando museus em Portugal, Espanha e Itália, experiência timidamente relatada numa entrevista concedida em 13 de junho de 1969, ao jornal paulista Última Hora.

Após ganhar notoriedade em sua cidade natal, Cid pode comercializar suas telas com temas florais. Pintou então vários painéis de flores e temas religiosos, encomendados por serranos, para decoração de consultórios, residências e hall de entrada de edifícios residenciais, entre outros; as vendas lhe garantiram, por muito tempo, um acréscimo em seu orçamento.

Com a sua dedicação em garimpar objetos antigos, ele conseguiu transformar sua casa em um reduto de antiquários. O espaço despertou curiosidade da população de Serra Negra e de turistas. Desse modo, Cid teve o primeiro contato com a escritora Helena Silveira, que demonstrou um enorme fascínio por sua produção artística. A relação evolui para uma sólida amizade, a ponto de a escritora e amiga sugerir que alterasse sua assinatura de Cid para Cid Serra Negra.

Nos anos de 1960, em São Paulo, iniciou-se a promoção de sua produção artística, que culminou em convite para uma exposição individual na Galeria Portal. Em 12 de junho de 1969, ele inaugurou a exposição, apresentando trinta e seis telas. Naquela ocasião, foi aclamado como pintor primitivo e ingênuo[10], rendendo várias reportagens nos jornais paulistanos e o convite para participar do programa televisivo de Hebe Camargo.

Suas telas são geralmente vivas e transmitem sempre uma mensagem de candura e otimismo voltada para força da fé e do místico. Cid é, antes de tudo, folclórico. Um homem pitoresco em imaginação e força criativa. Inteligente e cuidadoso, pinta pelo seu instinto artístico, baseado no diminuto conhecimento que o cobriu pelas leituras (em francês) dos grandes mestres da pintura (Folha de São Paulo, edição de 12/06/1969).

A exposição em São Paulo propiciou-lhe grande prestígio, mas sua natureza simples e pacata não mudou. Ele seguiu em Serra Negra e manteve-se produtivo até sua morte, ocorrida em 2 de agosto de 1993, aos 69 anos.

Imagem 6 – À esquerda, Cid de Abreu e sua mãe (s/d). À direita, Cid de Abreu em Roma (s/d). Cedida por Pedro De Langélica (acervo da autora)


Cid na Igreja de São Benedito

Nos anos de 1970, Cid dedicou-se ao compromisso assumido junto à Irmandade de São Benedito e, por muitos anos, trabalhou na pintura interna do santuário. Um projeto autoral com muitas cores, flores, personagens folclóricos, santos e anjos com traços chineses. A igreja, localizada no final da Avenida Santos Pinto, é pequena e delicada. Ao entrar, o olhar é dirigido para a abóboda de azul intenso, permeado de pequenas estrelas douradas; anjos brancos e negros flutuam ladeando o Espírito Santo, dando a impressão de que o altar está inserido no céu.

No altar-mor estão dispostos São Benedito (centro), Santa Efigênia (à esquerda) e Santa Terezinha (à direita). Ao pé do altar, está Santa Cecília e uma de suas relíquias, doações de Cid de Abreu. Guirlandas de flores suspensas adornam as paredes laterais e o teto, que abriga pequenos anjos brancos e negros, distribuídos alegremente entre as colunas pintadas, destacando a figura do Saci Pererê. A via sacra está disposta nas laterais, em quatorze quadros, sendo cada passo contornado por madeiras semiovais. Ainda nas laterais, encontram-se as pinturas de Santa Clara, São Francisco e São Domingos, bem como as estátuas de Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio e Santo Expedito. Nossa Senhora do Bom Parto está em uma capela adjacente ao altar.

À esquerda da entrada está o batistério, adornado por um quadro do artista, representando o batismo de Jesus por São João Batista. Trata-se de uma representação simples e colorida. Por fim, ressaltamos as flores que embelezam toda a nave; presentes nos suportes e nichos das imagens religiosas e nas portas do templo.

Imagem 7 – Imagens dos santos pintados nas paredes laterais, na entrada da Igreja de São Benedito. (São Francisco, São Domingos e Santa Clara), novembro/2019 (acervo da autora)
Imagem 8 – Detalhes da pintura do altar, os anjos esvoaçantes, incluindo anjos negros. Novembro/2019 (acervo da autora)


Em janeiro de 1977, justamente na data da festa em louvor ao Santo, a população serrana teve acesso às ornamentações do templo.

Domingo próximo passado, dia 9, Serra Negra, fiel às suas tradições de religiosidade cristã, festejou os milagrosos São Benedito e Santa Efigênia. Uma multidão participou desses festejos comparecendo ao Alto dos Pinheirais, onde se localiza a bonita Igreja de São Benedito, agora completa e artisticamente reformada. Tudo ali é belo, grandioso, emotivo, espiritual. E dentre toda essa beleza, projeta-se a pintura, tanto do altar-mór, representando a adoração dos Anjos ao Espírito Santo, como as paredes laterais, e dos 14 quadros da Via-Sacra pintados em madeira com fundo doirado. Trabalhos de um gênio que nasceu em Serra Negra, que cresceu em Serra Negra e que criou a sua própria escola da pintura primitivista brasileira: Cid Abreu […]. (Jornal “O Serrano”, edição de 11/1/1977).

Imagem 9 – Detalhes do teto da Igreja de São Benedito, destacando a presença da figura do Saci Pererê. Novembro/2019 (acervo da autora)
Imagem 10 – Os quadros da via sacra, total de quatorze, pintados em madeira, estão dispostos nas paredes laterais da Igreja de São Benedito. Novembro/2019 (acervo da autora)


Considerações finais

Na parede lateral esquerda da Igreja de São Benedito está afixada uma placa, quase imperceptível, que contém o agradecimento à mão de obra escrava, denotando a importância dos homens escravizados e libertos na trajetória da Irmandade e na edificação do templo sagrado. Tem-se a impressão de que aquelas palavras simbolizam a gratidão a todos os fiéis e cidadãos que prestaram algum tipo de colaboração, muitas vezes, invisíveis e anônimos.

Dentro do histórico apresentado, permite-se pensar a religiosidade de Serra Negra. A cidade que surgira e prosperara no entorno de uma pequena capela, local de congregação de seus habitantes para a comunhão. O sentimento religioso extrapolou as paredes da matriz de Nossa Senhora do Rosário, chegando à zona rural, às pequenas capelas das fazendas, aos oratórios das casas. Através de uma junção de interesses entre pessoas livres, escravas e libertas, fundou-se uma irmandade religiosa, cujo padroeiro é um santo negro, considerado “sinônimo da ternura”. A necessidade de liberdade, dentro de uma sociedade escravocrata, foi assim suprida pela manifestação da cultura negra nas apresentações das congadas e na participação como associados na irmandade religiosa.

A trajetória de Cid de Abreu está marcada por sua sensibilidade artística. Ele incorporou os diferentes mundos ao realizar a pintura interna da Igreja de São Benedito. Ali estão representados os negros e brancos, nos anjos esvoaçantes e livres do altar mor; a ingenuidade e beleza, nas flores; o aprendizado religioso, na simplicidade do templo; a alegria das festas anuais ocorridas nos espaços sagrados e profanos, nas cores utilizadas; a separação tênue entre a cultura popular e os ambientes sacros, com a presença do Saci Pererê no teto da Igreja. Enfatizando a santidade do local, através dos quatorze pequenos quadros da via sacra e do conjunto harmônico do altar mor, tendo o Espírito Santo ladeado pelos anjos.

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RELATÓRIO apresentado ao Exmo. Sr. Presidente da Província de São Paulo pela Comissão Central de Estatísticas, Leroy King Bookwalter, São Paulo: Tipografia King, 1888.

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SAINT-HILAIRE, Augustin François César Prouvençal. Viagem à província de São Paulo e resumo das viagens ao Brasil, província Cisplatina e missões do Paraguai. São Paulo: Martins, 1953.

SCARANO, Julita. Devoção e escravidão: A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.

SILVA, Claudia Felipe da. Vida Musical, imigração italiana e desenvolvimento urbano: a trajetória sócio-histórico-cultural de Serra Negra, ao longo do século XX. Doutorado – Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017.

SIQUEIRA, Hildebrando. Apontamento para História de Serra Negra – Revista do Instituto Histórico e Geográfico. São Paulo, Vol XXXI: 1933/1934 (Sócio Correspondente).

Notas

[1] Na obra de Saint-Hilaire, Viagem à província de São Paulo, o autor narra sua passagem por Mogi Mirim, em 1819, e suas impressões sobre o pequeno povoado e seus arredores. Descreve que as terras eram muito férteis e apropriadas para o cultivo da cana-de-açúcar, cuja produção era enviada para o Rio de Janeiro e São Paulo. Durante os anos de 1818 a 1823, muitos mineiros afortunados migraram e se estabeleceram na região de Mogi. Descreve também sua estada em um engenho de cana denominado Pirapintingui ou Pirapitingui (do guarani, piratitagi – peixe quase vermelho), antes de seguir viagem para Campinas. (pp. 142-146)

[2] Capela Curada: título oficial dado pela Igreja Católica a uma vila com determinada importância econômica e populacional.

[3] Fogos nesse contexto é sinônimo de moradia familiar.

[4]Foram encontrados quatro Códigos de Posturas de Serra Negra, com as respectivas datas: 1875, com aditamento de 03/06/1877; 1886, com alterações de alguns artigos conforme resolução de 22/08/1888; 1905 e o último datado de 1919.

[5] Existem também as informações que seguem: Em 1873, tem-se o registro da Irmandade Santíssimo Sacramento, a Matriz sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário, Capela de Santa Cruz e um cemitério municipal. Dados de 1873 – Almanak da Província de São Paulo. Dados de 1888 – Relatório da Província de São Paulo. A Capela de São Benedito e cemitério estavam localizados no antigo Paço Municipal, o espaço foi desapropriado pela Câmara para a construção de uma avenida. Jornal “Gazeta da Serra”, edição de 07/07/1910.

[6] Atualmente está instalado no local a agência dos Correios.

[7] Esse novo cemitério foi instalado ao lado do já existente, cuja autorização de funcionamento datava de 1875 (Alves, 2016, fls. 257). Na década de 1910, transferiu-se para o sopé do morro do Fonseca, atualmente Praça Lions Club. Quando da sua desativação, os restos mortais foram trasladados para o atual cemitério, fato este ocorrido em meados do século XX.

[8] Atualmente a entidade denomina-se Irmandade de São Benedito da Paróquia de São Francisco de Assis, sendo patrimônio da Diocese da Amparo/SP;aprovou-se o último estatuto em 21 de julho de 1957, dados gentilmente cedidos por Benedita Gomes Rosa.

[9] Cid foi membro do coral da Igreja Nossa Senhora do Rosário.

[10] Cid de Abreu consta das primeiras edições do Dicionário Brasil de Arte.

Sobre o autor

Claudia Felipe da Silva

Musicista, Doutora em Educação pela UNICAMP. Participa do grupo de pesquisa “A imagem de Deus: Religião, História e Arte” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.