Revista Laboratório Temática 2 – Estudos sobre morte e pós-morte

A inescapável realidade do envelhecimento e da morte

A evolução da medicina e da indústria farmacêutica – que, através da descoberta de tratamentos e remédios para doenças antes consideradas fatais cumulada ao combate e alívio da dor – proporcionou benefícios inegáveis ao ser humano, gerou o aumento da expectativa de vida, o envelhecimento saudável com retardamento de seus efeitos e, consequentemente, o número de idosos.

Tal evolução e aumento da longevidade não tornou mais fácil tratar da morte e do processo que a antecede, seja doença ou envelhecimento, uma vez que pensar e aceitar a finitude da vida, da sua ou da de quem se ama, ainda é assunto espinhoso e de difícil aceitação. Implica reconhecer a limitação do ser humano e que o poder e controle da vida proporcionados pela medicina são ilusórios.

Uma das formas adotadas para evitar o tema da morte foi afastá-la, tanto quanto possível, encobrindo e reprimindo a ideia indesejada ou assumindo uma crença inabalável na própria imortalidade mediante a qual “os outros morrem, eu não”; da mesma forma que,

as sociedades mais desenvolvidas, em nome de uma higienização biológica, afastam o indivíduo adoentado da família e encerram o moribundo em hospitais, de modo que a partir deste momento é o Estado, com todo seu aparato burocrático, que tomará os cuidados necessários para com o doente, este que logo tornar-se-á um cadáver. Tal procedimento aponta para uma mudança: a morte deixa de ser pública e torna-se um acontecimento privado, institucionalizado. (MARTINS, 2019, p. 43)

Assim, não apenas a ideia da morte é afastada, como os próprios familiares adoentados ou idosos, que não deixam esquecer que o fim é inevitável, em razão da incapacidade do ser humano em conceber a morte, a doença ou, até mesmo, o envelhecimento, fato mais do que previsível na vida.

Essa incapacidade de lidar com os idosos, esse desconforto entre os vivos na presença dos moribundos, são reforçados pelo não enfrentamento do envelhecimento do ser humano e, com ele, a fragilidade, a perda da força e independência, do controle de si mesmo, que precedem a morte, fim natural da vida, de maneira concreta. E, também, pela ausência de identificação de pessoas de outras faixas etárias com os velhos e moribundos, uma vez que, consciente ou inconscientemente, as pessoas resistem à ideia de seu envelhecimento e morte tanto quanto possível, criando dificuldade em entender a situação e experiência dos velhos.

A relutância em examinar de forma honesta a experiência do envelhecimento e suas consequências físicas e psicológicas aumenta os males causados ao idoso, que é atirado no esquecimento. Invisível porque não é mais útil, deixa de possuir significado ou importância, gerando uma mudança drástica na posição que ocupava na sociedade e em todas as suas relações com os outros. Isolado, perde os laços com aqueles que ama, com quem se relaciona; já não pertence nem ao mundo dos vivos e, tampouco, ao mundo dos mortos. Ele está na mais terrível solidão.

Some-se a tal fato o banimento da morte do espaço público, gerado pelo desenvolvimento de técnicas que auxiliam a viver mais. Os moribundos realizam seu suspiro derradeiro nos hospitais, acompanhados por máquinas de última geração e, dessa forma, “nunca antes na história da humanidade foram os moribundos afastados de maneira tão asséptica para os bastidores da vida social; nunca antes os cadáveres humanos foram enviados de maneira tão inodora e com tal perfeição técnica do leito de morte à sepultura” (ELIAS, 2001, pp. 30-31).

Há um equívoco substancial em atribuir ao avanço da medicina o prolongamento da vida, na exata medida em que o citado prolongamento não foi da vida, mas sim do envelhecimento. Fenômeno que gera um número cada vez maior de idosos solitários – no sentido em que as pessoas com as quais tinham vínculos já morreram antes delas, os filhos estão distantes porque estão sobrevivendo, netos na maior parte das vezes não existem – e o crescente número de casas de repouso, que garantem a sobrevivência e saúde dos idosos.

Além disso, há o desconhecimento de como lidar com o idoso, suas necessidades físicas, psicológicas e emocionais e, até mesmo, um total desinteresse em obter tal conhecimento, passando a situação a ser vista tão somente do ponto de vista profissional e distante, sem vínculos.

O envelhecimento é o grande desafio da modernidade, na medida em que significa a perda do direito de fazer escolhas em prol da segurança, sem importar o ônus de tal condição, o vazio da existência, a inexorável tristeza que invadirá o indivíduo, reduzido a um ser controlado, supervisionado, cuja existência é meramente institucional. E, sob o ponto de vista do “fim da vida” (que pode durar anos…), o que o idoso pensa, sente ou deseja, não tem mais importância. Assim como não é considerado que, à medida que o tempo passa, a relação entre os pesos e os valores também se transformam, as prioridades mudam drasticamente, focando mais o “ser” em vez do “fazer” e o presente mais do que o futuro (GAWANDE, 2014); sendo necessário entender a complexidade dessa fase da vida que, em última análise, será revelada a todos.

Essa condição é retratada com perfeição pelo escritor Valter Hugo Mãe, expressando uma rara empatia com o idoso, ao mostrar a impotência de um viúvo que, aos 85 anos, vai morar em um asilo, por decisão dos filhos da qual não participou, perdendo sua condição de homem adulto e autônomo, para aceitar morrer “violentamente devagar”, e o choque de ser tratado como uma criança, pela falácia que sua mentalidade seria a ela equiparável, simplesmente por ser idoso (MÃE, 2016).

No curso dessa obra – A máquina de fazer espanhóis – nos deparamos com os sentimentos mais íntimos, mais sinceros, mais tormentosos que passam pela alma do idoso ao se ver destituído de todos os seus pertences, sem direito sequer às suas memórias (a filha tirou o álbum de fotografias para que “não sofresse”), sem voz ativa, num processo que tem início com a recusa em “aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento” (MÃE, 2016, p. 47), para, ao final, concluir que “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia, este resto de vida (…) sobre este resto de amizade” (MÃE, 2016, p. 243).

Compreende-se que a velhice é um estágio – mesmo que último – natural da vida, que, com todas as suas consequências, fragilidades e eventuais doenças, não retira do indivíduo seus valores, inteligência, conhecimento, discernimento, sabedoria, carências, desejos e consciência do que ocorre à sua volta, porque a velhice não o torna menos humano que os mais jovens, só mais limitado. Por isso, da mesma forma que os mais jovens, o idoso deseja ter reconhecido seu significado, seu valor, ser tratado como uma pessoa que tem sua história, seu eixo interior íntimo e, sobretudo, seu mistério.

Denota-se, dessa forma, que a velhice e a morte são estágios de aprendizado não apenas daquele que está morrendo, mas dos que o rodeiam perderem o medo de falar, de perguntar e, principalmente, de ouvir o que o doente tem a dizer; porque esse é o momento em que se reflete sobre o sentido da vida, se haverá transcendência, qual o devir de sua existência, enfim, questões inerentes à sua própria essência. Mas a resposta não é o mais importante e, sim, a proximidade humana, a solidariedade, o despertar do seu valor e dignidade, o sentimento de pertencimento à família, o encontro do eco de seus sentimentos no outro.

A realização do sentido para um indivíduo está intimamente relacionada ao significado que ele adquire, ao logo da vida, para as outras pessoas, seja por sua pessoa, seu comportamento ou seu trabalho; e, então, a verdadeira solidão chega quando se perde esse sentimento, quando se deixa de ter significado para os outros.

O modo como uma pessoa morre depende do

quanto a sente que sua vida foi realizada e significativa – ou frustrada e sem sentido. (…) Mas quaisquer que sejam as razões, podemos talvez supor que morrer é mais fácil para aqueles que acreditam terem feito a sua parte, mais difícil para os que sentem terem fracassado na busca de seus objetivos, e especialmente difícil para aqueles que, por mais que sua vida possa ter sido bem-sucedida, sentem que sua maneira de morrer é em si mesma sem sentido. (ELIAS, 2001, p. 72)

E, embora não exista fórmula mágica para encontrar o caminho que leve ao autoconhecimento e ao sentido da vida, capaz de fazer compreender e aceitar da melhor forma possível a sua finitude, cito o filósofo Luiz Felipe Pondé, que em entrevista ao podcast “Irmã Morte: Histórias de um Capelão Hospitalar”, ao ser questionado sobre o que seria a boa vida e a boa morte para o filósofo hebreu [referência a um curso seu], afirma:

Uma boa vida, uma vida vivida plenamente, é uma vida em que você caminhou por ela ao lado de seu Deus, sabendo que a vida é vivida entre o mistério e o milagre.
(…)
Uma boa morte, do ponto de vista objetivo, é aquilo que no judaísmo se fala ‘receber um beijo de Deus’, é morrer dormindo, quer dizer, você nem percebe o que aconteceu e você simplesmente já foi.
Agora, em termos gerais, eu tenho a impressão que uma boa morte deve passar, provavelmente, por você perceber que em um dado momento é melhor ir embora, um processo de paulatino desapego, não dessa palavra que está na moda, mas desapego grego, a sério, se desapegar, e perceber que não adianta você insistir em algo que já não é mais realidade, é a hora de ver o mistério, está na hora de ir em direção ao mistério.
(…)
E, no final das contas, perceber que, no fundo, tudo é graça, a vida nunca lhe pertenceu e que foi um empréstimo, uma dádiva e você tem que devolver ao dono.

Referências

ELIAS, Norbert. A Solidão dos Moribundos. Tradução de Plínio Dentzien, Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 2001.

GAWANDE, Atul. Mortais – Nós a medicina e o que realmente importa no final. Tradução de Renata Telles, Rio de Janeiro. Ed. Objetiva. 2014.

HENNEZEL, Marie De, Leloup Jean-Yves. A arte de morrer: tradições religiosas e espiritualidade humanista diante da morte na atualidade. 11ª edição. Petrópolis: Vozes, 2018.

MÃE, Valter Hugo. A Máquina de Fazer Espanhóis. São Paulo. Biblioteca Azul. 2016.

MARTINS, Andrei Venturini, A Verdade é Insuportável: ensaios sobre a hipocrisia. São Paulo, Ed. Filocalia, 2019.

PONDÉ, Luiz Felipe. A Filosofia do Cotidiano, um pequeno tratado sobre questões menores. São Paulo. Editora Contexto. 2019.

Podcast “Irmã Morte: Histórias de um Capelão Hospitalar”, por Roberto Miguel, episódio “Mistério e Graça” – entrevista com o Professor e filósofo Luiz Felipe Pondé, 02/05/2021;

Pondé, Luiz Felipe, Curso Online – Comentários Bíblicos: A Busca do Filósofo Hebreu, www.pondecursoonline.com

Sobre o autor

Maria Cristina Navarra

Advogada pela PUC/SP, graduada em História pela FFLCH da USP e pesquisadora do Grupo de Estudos de Morte e Pós-Morte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.